Valor - SP 31/07/2025
Em 2024, diz a federação, 48 municípios do Estado exportaram para o mercado americano e poderão ser impactados pelo tarifaço
A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) manifesta preocupação com a decisão de Donald Trump de aplicar tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. Em nota divulgada na noite desta quarta-feira (30), a instituição afirma que o anúncio de hoje não altera a tarifa de importação sobre produtos de aço e alumínio anunciada anteriormente. "Estes permanecem como ponto de grande preocupação a ser mantido na agenda de negociações", diz a entidade.
Conforme a Firjan, as tarifas anunciadas hoje impactam diretamente a pauta exportadora do Estado do Rio, salvo produtos da lista de exceção, como óleos brutos de petróleo.
Em 2024, diz a Firjan, 48 municípios do Estado exportaram para o mercado americano e poderão ser impactados pelo tarifaço. Ainda segundo a federação, em consulta com a base empresarial, cerca de 60% dos consultados esperam impactos das medidas em seus negócios no curto prazo, principalmente na queda de receitas, no aumento de custos operacionais e na redução das exportações.
"Nesse contexto, a Firjan defende a urgência da intensificação da atuação diplomática e paradiplomática em diversos níveis para a construção de uma solução negociada e célere de modo a mitigar os impactos econômicos e sociais das novas tarifas anunciadas", destaca a nota.
O Estado de S.Paulo - SP 31/07/2025
A confirmação da taxação dos Estados Unidos de 50% ao Brasil com uma lista de 694 exclusões diminui eventual impacto no Produto Interno Bruto (PIB) do País, avalia o Goldman Sachs.
O banco americano calcula que o efeito negativo líquido no crescimento da economia brasileira pode ser de cerca de 0,25 ponto porcentual, em um cenário que não considera uma retaliação significativa por parte do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Antes, o Goldman projetava algo entre 0,3 p.p. e 0,4 p.p.
“Medidas de apoio fiscal e de crédito aos setores mais afetados e alguma diversificação de comércio para mercados alternativos poderiam reduzir o impacto na atividade real devido às tarifas de importação mais altas dos EUA”, diz o diretor de pesquisa macroeconômica para a América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, em relatório a clientes.
Nesse cenário, o banco americano manteve a sua projeção de crescimento de 2,3% do PIB brasileiro para 2025. Do impacto esperado com o tarifaço do presidente dos EUA, Donald Trump, cerca de 0,1 p.p. já estava contabilizado em seu cenário base, afirma.
“Não estamos revisando nossas previsões de crescimento, dada a incerteza inerente em torno das tarifas que o Brasil enfrentará e o fato de que o risco em torno de nossa previsão de crescimento real do PIB de 2,3% para 2025 está inclinado para o lado positivo”, explica Ramos.
O Goldman Sachs calcula que as isenções listadas na ordem executiva, assinada nesta quarta-feira, 30, por Trump, reduzem o aumento esperado na taxa efetiva dos EUA sobre todas as importações brasileiras em 6 p.p., para 30,8%. Nesse cenário, o banco diz que considera “futuras tarifas setoriais adicionais”. Antes das exclusões, o Goldman projetava uma tarifa efetiva de 35,5%.
O economista alerta, porém, que uma retaliação por parte do governo Lula ao tarifaço de Trump geraria um “impacto negativo maior na atividade brasileira e na inflação”. Além disso, exportações de serviços poderiam ser mais afetadas que de bens, prevê.
Na visão do Goldman Sachs, o governo Lula demonstrou nos últimos dias tanto uma predisposição para negociar quanto para retaliar, enquanto avalia medidas de apoio aos setores mais afetados.
“No entanto, as autoridades brasileiras não têm sido particularmente proativas em se engajar com as autoridades dos EUA e não está claro o que estão trazendo para a mesa de negociações para, por exemplo, abrir o mercado interno”, conclui Ramos.
Infomoney - SP 31/07/2025
Líderes da China sinalizaram não ter planos de lançar mais estímulos significativos por enquanto, em um momento em que se dedicam a lidar com a questão do excesso de capacidade na segunda maior economia do mundo.
Em vez de anunciar mais apoio para impulsionar o crescimento, o Politburo do Partido Comunista chinês, principal órgão de formulação de políticas do país, prometeu nesta quarta-feira (30) aprimorar a execução de políticas que já estão em vigor, segundo a agência de notícias estatal Xinhua.
“Embora a Índia seja nossa amiga, temos, ao longo dos anos, feito relativamente poucos negócios com eles porque suas tarifas são muito altas”, escreveu Trump em um post no Truth Social
O Politburo indicou estar disposto a agir caso o ritmo de crescimento enfraqueça, ao apontar o “aumento de incertezas”, sem, no entanto, mencionar diretamente as atuais tensões comerciais com os EUA.
Integrantes do órgão se comprometeram a redobrar esforços para estimular a demanda doméstica com planos de expandir o apoio ao setor de serviços, além de dar continuidade ao programa de troca de bens de consumo.
O setor exportador da China tem sido pressionado pela iniciativa do presidente dos EUA, Donald Trump, de elevar tarifas sobre produtos do país, embora os embarques para o exterior tenham se mantido relativamente firmes.
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Em reunião, o Politburo manteve uma postura política cautelosa, reiterando as diretrizes macroeconômicas anunciadas em abril, mas não revelou novos incentivos para a habitação – sinalizando apetite limitado por novos estímulos, apesar do enfraquecimento da atividade no setor imobiliário, afirmou a chefe de economia para Ásia da Oxford Economics, Louise Loo.
O Politburo também reafirmou a intenção de conter o excesso de capacidade em algumas indústrias-chave que, segundo economistas, geram pressões deflacionárias.
Ao longo do último mês, autoridades chinesas alertaram repetidamente sobre a competição “desordenada” que tem corroído as margens de lucro das empresas, alimentando especulações de que uma nova onda de reforma do lado da oferta pode estar em andamento para reflacionar a economia.
O Politburo prometeu intensificar o apoio financeiro para exportadores em dificuldades e impedir que riscos ligados a dívidas de governos locais se espalhem ainda mais. Afirmou ainda que buscará tornar o mercado de capitais doméstico mais atraente e inclusivo.
O Partido Comunista Chinês realizará sua próxima reunião plenária em outubro para discutir o 15º plano quinquenal, referente ao período de 2026 a 2030.
De modo geral, economistas esperam que Pequim se concentre em ampliar a resiliência econômica no próximo plano quinquenal, fortalecendo a autossuficiência tecnológica e a manufatura de ponta em preparação para uma prolongada rivalidade com os EUA.
Globo Online - RJ 31/07/2025
Uma longa lista de exceções, com quase 700 produtos brasileiros que ficarão de fora da tarifa de importação adicional de 40% (totalizando 50% com os 10% anunciados em abril) sobre os produtos brasileiros importados pelos EUA, amenizou o peso do tarifaço do presidente Donald Trump sobre setores econômicos e empresas brasileiros.
Com a divulgação ontem do decreto do presidente americano Donald Trump confirmando a ameaça de taxar produtos brasileiros, mas com uma longa lista de exceções, uma parte das empresas brasileiras respirou aliviada e outra se manteve no alvo da Casa Branca.
Em cálculo preliminar, a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham) estimou que US$ 18,4 bilhões das exportações brasileiras para os EUA, 43,4% do total, serão poupados.
No total, o Brasil exporta para os EUA em torno de 4 mil produtos. A estimativa da Amcham considera as 694 exceções listadas no decreto de ontem. O levantamento deixou fora produtos que, embora estejam entre as exceções, são alvo de investigações de práticas comerciais desleais, abertas pelo governo americano, como aço, alumínio, autopeças e outros.
— Houve exceções importantes, principalmente petróleo, gás, celulose e suco de laranja. Mas muita coisa ficou dentro. Café, frutas, manga e toda a parte de produtos industriais vão estar dentro (da tarifa adicional de 40%). Então, ainda tem um impacto muito grande sobre o Brasil — disse Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior brasileiro e sócio da consultoria BMJ.
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José Augusto de Castro, presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), explicou que a pressão das empresas tem a ver com o fato de que alguns setores da indústria americana dependem de fornecedores brasileiros. Por isso, chamou a atenção a ausência do café da lista de exceções.
— Deduzo que os que seriam mais afetados teriam dificuldade de arranjar substituto. Especulamos que o café possa ser incluído por ser de difícil substituição. A Colômbia, por exemplo, não tem produção suficiente para atender — afirmou Castro.
Como reagiram os setores?
A CitrusBR, entidade que representa os exportadores brasileiros de suco de laranja, 56% de tudo que os EUA importam anualmente do produto vêm do Brasil. Ibiapaba Netto, diretor da CitrusBR, disse ver com “alívio” a lista de exceções no anexo do decreto de Trump. O executivo credita a decisão à mobilização da cadeia produtiva e de distribuição do suco nos EUA — uma das empresas importadoras, a Johanna Foods, chegou a recorrer ao Judiciário americano contra o tarifaço sobre o Brasil.
— Entendemos que é uma concessão feita pelo governo americano à indústria local americana, porque existe uma forte interdependência entre a indústria de sucos brasileira e a americana, a de lá depende da de cá. A gente sabe que não é uma concessão feita ao setor brasileiro — afirma Netto, informando que 42% das exportações de suco de laranja do Brasil vão para o mercado americano.
Já o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) informou que manterá as tratativas com importadores nos EUA para pressionar pela inclusão do café na lista de exceções. E destacou que os cafés brasileiros respondem por 30% do consumo dos americanos. Vão para os EUA 16% do café exportado pelo Brasil.
Embraer, uma das principais vencedoras
No caso da indústria de aviação, todos os olhos estavam voltados para a Embraer. A companhia brasileira é a principal fabricante global de jatinhos e aeronaves de menor porte, usados na aviação regional. E o principal mercado de aviação regional do mundo é os EUA. Dessa forma, assim como a Embraer depende da demanda americana, as companhias aéreas regionais dos EUA dependem dos aviões fabricados pela empresa brasileira.
Conforme um levantamento feito pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), dos quase 700 bens listados entre as exceções, 565 referem-se a produtos destinados ao uso da aviação civil.
A Embraer avaliou positivamente a exceção da sobretaxa de 40%, mas informou que seguirá defendendo firmemente tarifa zero para indústria aviões.
Pequenas empresas e mineração têm algum alívio
Joseph Couri, presidente do Sindicato Patronal da Micro e Pequena Indústria (Simpi), avaliou que quase todo segmento foi beneficiado pela lista de exceções do decreto. Couri diz que, como a lista é grande ainda está analisando o impacto total nas oito mil micro e pequenas empresas que têm o mercado americano como destino de suas produções, mas destacou particularmente impacto positivo para pequenos agricultores.
O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) teve um ganho parcial. A entidade avaliou que, mesmo com exceções para o setor, não foram contempladas na lista alguns minerais como caulim, cobre, manganês, vanádio, bauxita e algumas pedras e rochas ornamentais. Dessa forma, o setor vai ser impactado, mas com menor intensidade.
Uma análise preliminar do Ibram indica que, dos US$ 1,53 bilhões de dólares exportados para os EUA pelo Brasil em minerais por ano (4% das exportações do setor), cerca de 75% estão na lista de exceções. A entidade vai manter esforços para isentar todos os produtos do setor.
Pescados e carnes: setores mais preocupados
Fora da lista de exceções, a Associação Brasileira das Indústrias de Pescado (Abipesca) vê com grande preocupação a confirmação da tarifa de 50%, lembrando que os EUA absorvem 70% das exportações do setor. A entidade diz que não há alternativas viáveis de mercado e pede medidas emergenciais do governo para manter empresas e empregos do setor.
O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, afirmou nesta quarta-feira que a nova tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros — sem exceção para a carne bovina — deve gerar um impacto de cerca de US$ 1 bilhão apenas no segundo semestre deste ano.
A medida, anunciada pelo presidente Donald Trump, entra em vigor em 6 de agosto e, somada à alíquota atual de 26,4%, elevará a carga tributária total para mais de 76%, comprometendo a viabilidade das exportações para o segundo maior mercado de carne bovina do Brasil.
Segundo Perosa, o Brasil exportaria cerca de 400 mil toneladas de carne bovina aos EUA em 2025, mas a tarifa obrigará o redirecionamento de parte da produção para outros países ou para o mercado interno — este último com risco de queda de preços e prejuízos à cadeia produtiva.
O dirigente, no entanto, avaliou como positivo o prazo estendido para a entrada em vigor da medida para cargas já em trânsito. O governo dos EUA vai permitir a entrada sem sobretaxa de todas as mercadorias que chegarem ao país até 5 de outubro. De acordo com ele, isso permitirá que cerca de 30 mil toneladas já embarcadas ou em alto-mar cheguem aos EUA sem a sobretaxa.
Roupas e calçados em apuros
A indústria têxtil e de confecção é uma das mais aflitas por não ter entrado na lista de exceções. Em entrevista ao Valor, Fernando Pimentel, presidente da Abit, associação que representa as empresas do setor, afirmou que a tarifa de 50% praticamente inviabiliza exportações de roupas para os EUA. Somente fios coo os cordéis de sisal ficaram isentos da taxa adicional.
Ele afirmou que a entidade vai manter "todos os esforços para que o setor seja integralmente contemplado no grupo que ficaria só com a adicional de 10%". Apesar de a indústria têxtil não ter sido contemplada, Pimentel classificou como uma surpresa positiva o fato de o decreto de Trump vir acompanhado de uma lista tão detalhada de exceções, englobando, nos cálculos dele, cerca de 40% do comércio bilateral.
O setor calçadista, que tem nos EUA seu principal parceiro comercial, também fala em "danos irreversíveis". Em comunicado, a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) lamentou a manutenção das tarifas, "apesar de todos os esforços, de empresários e do corpo diplomático brasileiro", e estimou que, com a medida, as exportações para o país sejam inviabilizadas. Haroldo Ferreira, presidente-executivo da entidade, acredita num impacto imediato em 8 mil empregos no setor e pede programas do governo para ajudar as empresas atingidas.
Petróleo a salvo
Em nota, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) reiterou "sua grave preocupação" com a implementação das tarifas de 50% nos EUA, mesmo com as exceções apontadas. Produtos industriais como aço e alumínio seguem na mira das sobretaxas, mas petróleo e derivados (60% das exportações fluminenses) estão isentos de qualquer tarifa, já que Trump tem adotado essa exceção para importações de energia.
Segundo a entidade, 48 municípios fluminenses exportam para os EUA. Entre empresários ouvidos pela Firjan, 42% temem impacto em sua capacidade de manter empregos.
"Nesse contexto, a Firjan defende a urgência da intensificação da atuação diplomática e paradiplomática em diversos níveis para construção de uma solução negociada e célere para mitigação dos impactos econômicos e sociais das novas tarifas anunciadas", diz o comunicado.
O Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás afirmou que "recebeu positivamente a notícia de que o setor foi formalmente isento da tarifa de 50% aplicada pelos EUA sobre produtos brasileiros", o que classificou de um reconhecimento do caráter estratégico dos produtos energéticos.
Segundo a entidade que representa as petroleiras que atuam no Brasil, está em jogo não só a exportação de US$ 2,37 bilhões de petróleo registrada no primeiro semestre deste ano, mas também a importação de derivados essenciais para abastecer o mercado brasileiro.
"A manutenção da competitividade do setor junto ao mercado norte-americano contribui para preservar os fluxos comerciais e os investimentos, mitigando impactos imediatos".
Indústria prefere negociação
No setor industrial, alguns setores como o de máquinas e equipamentos ficaram entre as exceções, mas outros segmentos como têxteis e calçados não tiveram alívio.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) afirmou ontem que a imposição de tarifa de 50% para os produtos brasileiros, oficializada por decreto publicado pelo governo americano, causa "grande preocupação", pois compromete cadeias produtivas, reduz a produção, ameaça empregos e investimentos e contratos de longo prazo.
A entidade descarta, contudo, a possibilidade de retaliação, e reforça que o país deve se manter unido e ampliar os canais de diálogo e de negociação com os Estados Unidos.
— A confirmação da aplicação da sobretaxa sobre os produtos brasileiros, ainda que com exceções, penaliza de forma significativa a indústria nacional, com impactos diretos sobre a competitividade. Não há justificativa técnica ou econômica para o aumento das tarifas, mas acreditamos que não é hora de retaliar. Seguimos defendendo a negociação como forma de convencer o governo americano que essa medida é uma relação de perde-perde para os dois países, não apenas para o Brasil — afirma o presidente da CNI, Ricardo Alban.
A tarifa de 50% imposta pelos EUA deve afetar o setor de plástico de forma significativa, com impacto "profundo e duradouro", segundo a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast). Nos cálculos de José Ricardo Roriz, presidente do conselho da entidade, o tarifaço pode comprometer até 20% das exportações brasileiras ligadas direta ou indiretamente ao setor, representando perdas de até US$ 2 bilhões.
Em comunicado, o presidente da Abiplast critica o governo e fala em "diplomacia inoperante". “Nossa diplomacia foi inoperante, e os dois extremos da política nacional contribuíram para o agravamento do cenário. Tínhamos uma tarifa confortável de 10%, a mais baixa entre os países, e deixamos essa vantagem se perder por falta de ação e articulação. Agora, quem paga a conta é a sociedade, com impactos em empregos, investimentos e no ambiente de negócios”.
IstoÉ Dinheiro - SP 31/07/2025
O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, decidiu pela manutenção da taxa de juros em decisão nesta quarta-feira, 30. A decisão veio em linha com as projeções do mercado.
Com isso, os juros nos EUA seguem na faixa de 4,25% a 4,50% conforme a decisão do Fed desta quarta.
A posição do BC americano de manter os juros neste patamar vem em meio a um cenário de incessantes ataques do presidente Donald Trump ao Fed. Por sucessivas vezes o mandatário na Casa Branca sinalizou para uma possível demissão de Jerome Powell e pressionou a autoridade monetária para um eventual corte de juros.
No comunicado (veja na íntegra ao fim do texto), o banco central americano declarou que, apesar das oscilações nas exportações líquidas, os indicadores econômicos sinalizam que o crescimento da atividade econômica ‘moderou’ neste primeiro semestre, corroborando a decisão de manutenção de juros.
“A taxa de desemprego permanece baixa e as condições do mercado de trabalho continuam sólidas. A inflação segue um pouco elevada”, disse a autoridade monetária dos EUA.
O indicador de atividade econômica divulgado mais recentemente pelos EUA mostrou uma alta de 3% no Produto Interno Bruto (PIB) entre abril e junho. Os dados foram divulgados também nesta quarta-feira, 30, pelo Departamento de Comércio, e superaram projeções de analistas.
Em relação ao comunicado, o economista-chefe da Suno, Gustavo Sung, destaca que o comitê reforçou que os últimos dados de atividade econômica mostram um ritmo de crescimento moderado e com um panorama de preços pressionados.
“Esse cenário de preços pressionados nos próximos meses e mercado de trabalho firme, reforça a visão de que o Fed não precisa iniciar um ciclo de cortes de juros no curto prazo”, observa.
A visão da casa é de que a autoridade monetária americana deve aguardar os próximos dados de inflação e os desdobramentos do choque tarifário antes de tomar uma decisão.
“Mantemos a expectativa de que o primeiro corte só deve ocorrer em dezembro de 2025, a menos que haja uma deterioração mais significativa no mercado de trabalho”, sinaliza Sung.
A decisão não foi unânime dentre os membros do board do Federal Reserve.
Votaram a favor da manutenção de juros:
Jerome H. Powell (presidente) John C. Williams (vice-presidente) Michael S. Barr Susan M. Collins Lisa D. Cook Austan D. Goolsbee Philip N. Jefferson Alberto G. Musalem Jeffrey R. Schmid
Todavia, votaram para alteração de juros os membros Michelle W. Bowman e Christopher J. Waller. Esses votaram por um corte de 0,25 ponto percentual (p.p.) na taxa de juros dos EUA.
Adriana D. Kugler por sua vez esteve ausente e não votou.
Sung, da Suno, frisa que esse cenário de dissidência foi ‘uma novidade’ da reunião. O especialista observa que os dois diretores que votaram pelo corte de 0,25p.p. foram nomeados durante o primeiro mandato de Donald Trump e que nas últimas semanas eles já haviam sinalizado preferência por esse movimento.
“Apesar de terem sido escolhidos por Trump, que vem pressionando o banco central para reduzir o patamar restritivo da política monetária, não vemos sinais de interferência política por parte do Executivo, nem expectativa de demissão do atual presidente do Fed, Jerome Powell”, comenta.
“A principal incerteza no médio prazo gira em torno de sua sucessão. Powell deve permanecer no cargo até maio de 2026, mas o governo já sinalizou que a indicação do novo nome tende a ocorrer até o fim de 2025 — fora do padrão histórico — o que pode gerar ruídos sobre as próximas decisões de política monetária”, completa.
Comunicado do Fed na íntegra
Embora as oscilações nas exportações líquidas continuem afetando os dados, indicadores recentes sugerem que o crescimento da atividade econômica se moderou na primeira metade do ano. A taxa de desemprego permanece baixa e as condições do mercado de trabalho continuam sólidas. A inflação segue um pouco elevada.
O Comitê busca alcançar o máximo emprego e uma taxa de inflação de 2% no longo prazo. A incerteza quanto às perspectivas econômicas continua elevada. O Comitê está atento aos riscos que afetam ambos os lados de seu duplo mandato.
Para apoiar seus objetivos, o Comitê decidiu manter a meta para a taxa dos fundos federais na faixa de 4,25% a 4,5%. Ao considerar a extensão e o momento de novos ajustes na meta da taxa dos fundos federais, o Comitê avaliará cuidadosamente os dados recebidos, as perspectivas econômicas em evolução e o balanço de riscos.
O Comitê continuará reduzindo suas participações em títulos do Tesouro, dívidas de agências e títulos hipotecários emitidos por agências. O Comitê está fortemente comprometido em apoiar o pleno emprego e em trazer a inflação de volta à meta de 2%.
Ao avaliar a postura apropriada da política monetária, o Comitê continuará monitorando as implicações das informações recebidas para as perspectivas econômicas. O Comitê está preparado para ajustar a política monetária conforme necessário, caso surjam riscos que possam impedir o cumprimento de seus objetivos.
As avaliações do Comitê levarão em conta uma ampla gama de informações, incluindo indicadores das condições do mercado de trabalho, pressões inflacionárias e expectativas de inflação, além de desenvolvimentos financeiros e internacionais.
Globo Online - RJ 31/07/2025
O secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, avaliou nesta quarta-feira que as exceções de setores como determinados alimentos, minérios e aviação civil no tarifaço do governo americano a produtos brasileiros é uma melhora diante do cenário que estava desenhado anteriormente.
Durante coletiva de imprensa do resultado do Tesouro Nacional, Ceron foi informado das exceções, e evitou fazer avaliação de mérito até ver as medidas detalhadas. No entanto, ele avaliou como “positivo” que alguns setores não tenham ficado de fora da sobretaxa dos americanos.
— Eu não consigo reagir, porque não vou tomar esse risco, nem ser leviano de reagir assim, preciso olhar, nem sei como o restante da equipe está olhando, mas me parece, que do ponto de vista de efeito econômico, é positivo, é melhor que o cenário anterior, mas preciso entender um pouco o detalhe dele. [...] Dentre os cenários possíveis, não é o pior cenário possível, é um cenário mais benígno do que poderia ser.
Segundo o secretário, o governo está atento aos efeitos que a taxação terá sobre a atividade econômica brasileira e as contas públicas. Ceron garantiu que a reação do governo brasileiro deve ser “razoável”.
— Para tranquilizar dos dois lados, estamos atentos aos efeitos e pensando em uma forma razoável e com bastante racionalidade de como se preparar para permitir, que enquanto esse cenário não se resolva, a gente consiga ter instrumentos a disposição para dar o suporte, na medida do necessário, para que as coisas continuem bem, como estão nesse momento.
O governo já tem um plano de contingência pronto e apresentado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conforme já declarado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Segundo interlocutores, é bastante provável que o governo crie um programa de manutenção de empregos, similar ao que foi adotado na pandemia de Covid-19.
Nesta quarta, Ceron preferiu não detalhar os possíveis impactos fiscais que o plano teria sobre as contas do Tesouro. Segundo ele, o presidente Lula ainda precisa escolher qual caminho o governo tomará diante da taxação.
— Todo processo de estimativa dos impactos e custos das ações está feito mas ainda não tenho liberdade para publicizar. Não tenho problema nenhum quando puder explicar direitinho os efeitos, acredito que já estão bem dimensionados.
O presidente americano Donald Trump assinou nesta tarde uma ordem executiva implementando uma tarifa adicional de 40% sobre o Brasil, elevando o total da tarifa para 50%. A informação foi divulgada por volta das 15h em um comunicado da Casa Branca. Em vez de entrar em vigor no dia 1º de agosto, como havia sido anunciado por Trump, o decreto adia por sete dias a partir de hoje a implementação.
No entanto, o decreto estabelece uma longa lista de exceções, contemplando alguma das principais exportações do Brasil para os EUA, como aviões da Embraer, peças aeronáuticas, suco de laranja, madeira, vários insumos de madeira, celulose, equipamentos elétricos e petróleo, que já vinha sendo tirado das listas de tarifas dos EUA para os países.
O Estado de S.Paulo - SP 31/07/2025
A lista de 694 produtos que ficaram de fora do tarifaço do governo americano atenua em 41% o impacto sobre o Brasil, segundo cálculo preliminar da Leme Consultores, que fez um cruzamento entre os produtos que não serão atingidos pelo aumento de tarifas e a pauta exportadora do Brasil este ano. Quando o cruzamento é feito com a exportação de 2024, o porcentual cresce para 44,55%.
O governo brasileiro ainda não informou um cálculo oficial sobre o impacto das exceções. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva irá se reunir com auxiliares nesta quarta-feira para tratar sobre o tema.
Segundo o economista-chefe da consultoria, José Ronaldo Jr., as exceções aliviam bem o impacto sobre a economia brasileira, ainda que ainda haja efeitos consideráveis sobre alguns setores, como o de carnes e café.
Ficaram de fora da alíquota de 50% oficializada pela Casa Branca nesta quarta-feira, porém, produtos importantes na pauta de exportações brasileira para os EUA, como suco de laranja, celulose e aviões da Embraer.
“As exceções anunciadas pelo governo dos Estados Unidos reduzem significativamente o impacto potencial do tarifaço sobre a economia brasileira. Mais de 40% da pauta exportadora do Brasil ao País fica livre da tarifa adicional anunciada pelo governo americano”, disse Ronaldo Jr.
De janeiro a junho deste ano, o Brasil exportou US$ 20 bilhões para os Estados Unidos. Desse total, US$ 8,2 bilhões (41%) são de produtos que figuram na lista de exceções de Trump, enquanto US$ 11,81 bilhões são produtos que foram atingidos (59%).
Já no ano fechado de 2024, o Brasil exportou US$ 40,36 bilhões para os EUA. A lista de exceções de Trump teria excluído do tarifaço US$ 17,98 bilhões em produtos (44,55%), enquanto US$ 22,38% (55,45%) seriam atingidos.
Nos cálculos do ASA, a análise preliminar da lista de isenções ao tarifaço indica que cerca de 30% das exportações brasileiras aos Estados Unidos devem ficar isentas da medida, o equivalente a aproximadamente US$ 12 bilhões em vendas no acumulado de 12 meses até junho de 2025.
Dentro desse grupo isento, a pauta é altamente concentrada, pois apenas oito produtos respondem por 90% desse valor: São eles: óleos brutos de petróleo; ferro fundido bruto não ligado, com até 0,5% de fósforo; pastas químicas de madeira à soda ou ao sulfato, semibranqueadas ou branqueadas de não coníferas (exceto para dissolução); querosenes de aviação; outras partes de aviões ou helicópteros; suco de laranja congelado; pasta química de madeira para dissolução; e bulhão dourado (bullion doré), em formas brutas para uso não monetário.
Do lado dos produtos taxados, nove itens correspondem a cerca de um quarto do valor total que será afetado pela tarifa, com destaque para os dois primeiros, que juntos representam aproximadamente 12% das exportações brasileiras aos EUA: os produtos semimanufaturados de ferro ou aço não ligado, com baixo teor de carbono e o café em grão não torrado e não descafeinado.
“A pauta de exportações segue bastante concentrada, com alguns itens conseguindo escapar da nova tarifa, mas produtos como café e carne seguem sujeitos à alíquota de 50%. A entrada em vigor da medida foi postergada para 6 de agosto, o que ainda abre espaço para negociações setoriais”, diz Leonardo Costa, economista do ASA, ao citar o prazo dado pelo governo norte-americano para produtos que já estão em fase de importação.
IstoÉ Dinheiro - SP 31/07/2025
O crescimento econômico dos Estados Unidos acelerou no segundo trimestre do ano, segundo dados oficiais divulgados nesta quarta-feira (30), embora analistas alertem para distorções devido ao fato de as empresas estarem tentando se antecipar às tarifas do presidente Donald Trump.
A maior economia do mundo cresceu a uma taxa anual de 3% entre abril e junho, mais rápido que as previsões dos especialistas, revertendo a queda de 0,5% observada nos primeiros três meses do ano, segundo o Departamento do Comércio.
Isso levou rapidamente Trump a aumentar o tom de suas mensagens pedindo um corte nas taxas de juros: “Devem baixar a taxa agora”, disse, em referência ao presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell.
O Fed (banco central americano) anunciará a decisão de seu comitê de política monetária sobre as taxas nesta quarta-feira.
Os analistas que participaram da pesquisa do Briefing.com esperavam uma taxa de crescimento do PIB de 2,5%.
No início do ano, as empresas começaram a se abastecer para evitar o impacto das eventuais altas das tarifas anunciadas por Trump, mas os estoques já começam a baixar.
“O aumento do PIB real no segundo trimestre refletiu principalmente uma diminuição das importações, que são uma subtração no cálculo do PIB”, declarou o Departamento do Comércio.
A recuperação também refletiu um aumento nos gastos dos consumidores, segundo o relatório.
– Distorções –
Os analistas esperavam que o PIB se recuperasse à medida que as importações diminuíssem, mas alertaram que isso poderia não ser sustentável. Os mercados preveem que a iminente imposição de tarifas aumente a inflação, o que pode afetar os padrões de consumo.
“Está muito distorcido pelos fluxos comerciais e pelo inventário”, disse Kathy Bostjancic, economista-chefe da Nationwide, sobre o crescimento do segundo trimestre. Mas a aceleração não é sustentável, declarou à AFP.
Desde seu retorno à presidência dos Estados Unidos, Trump ameaçou e aplicou várias sequências de tarifas. Elas incluem uma taxa de 10% a quase todos os parceiros americanos, aumentos sobre o aço, alumínio e automóveis, além de medidas ao Canadá e México pelo imigração irregular e o tráfico de fentanil.
O governo Trump travou um embate com a China, com ambos impondo tarifas entre si de até três dígitos.
Washington e Pequim chegaram a uma trégua temporária para desescalar o conflito. Ambos concordaram esta semana, em Estocolmo, em prolongar essa pausa, embora a decisão final dependa de Trump.
Bostjancic prevê que a atividade subjacente que impulsiona o crescimento americano se estabilize.
“A economia americana continua navegando por um conjunto complexo de contracorrentes, o que dificulta uma leitura clara de seu impulso subjacente”, declarou Gregory Daco, economista-chefe da EY, em uma nota antes do relatório do PIB.
“A atividade econômica está desacelerando mesmo com o ressurgimento das pressões inflacionárias”, acrescentou.
“A pressão dos custos aumentados pelas tarifas, a incerteza política, a rígida restrição à imigração e as altas taxas de juros estão freando o emprego, o investimento empresarial e o consumo das famílias”, afirmou Daco.
Infomoney - SP 31/07/2025
O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu nesta quarta-feira (30) manter a taxa de juros básica, a Selic, em 15% ao ano, pondo fim a um ciclo de alta que começou em setembro e durou sete reuniões. A decisão unânime já havia sido sinalizada pelos próprios diretores do Banco Central em junho e era esperada pela ampla maioria dos agentes do mercado financeiro.
O colegiado do BC explicou que, em se confirmando o cenário esperado, “o Comitê antecipa uma continuação na interrupção no ciclo de alta de juros para examinar os impactos acumulados do ajuste já realizado, ainda por serem observados, e então avaliar se o nível corrente da taxa de juros, considerando a sua manutenção por período bastante prolongado, é suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta”.
Na avaliação do cenário externo, o Copom comentou que ele está mais adverso e incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, principalmente acerca de suas políticas comercial e fiscal e de seus respectivos efeitos.
Sobre o cenário doméstico, a avaliação é que o conjunto dos indicadores de atividade econômica tem apresentado, conforme esperado, certa moderação no crescimento, mas o mercado de trabalho ainda mostra dinamismo. “Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes mantiveram-se acima da meta para a inflação”, diz o comunicado.
O BC manteve sua projeção para o IPCA cheio de 2025 em 4,9%, assim como a estimativa para 2026, em 3,6%. Houve uma ligeira queda na projeção para os preços livres no indicador, de 5,2% para 5,1% em 2025, mas foi feito um ajuste para cima nos preços administrados, que passaram de uma alta de 3,8% para 4,4% neste ano.
Para 2026, a estimativa para os preços livres dentro do IPCA passou de 3,4% para 3,5%, enquanto a dos administrados recuou de 4,1% para 4,0%.
O Copom apresentou ainda a projeção para o 1º trimestre de 2027: IPCA cheio de 3,4%, com variação de 3,3% para os preços livres e de 3,9% para os administrados.
Veja a íntegra do comunicado do Copom:
“Copom mantém a taxa Selic em 15,00% a.a.
O ambiente externo está mais adverso e incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, principalmente acerca de suas políticas comercial e fiscal e de seus respectivos efeitos. Consequentemente, o comportamento e a volatilidade de diferentes classes de ativos têm sido afetados, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige particular cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por tensão geopolítica.
Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores de atividade econômica tem apresentado, conforme esperado, certa moderação no crescimento, mas o mercado de trabalho ainda mostra dinamismo. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes mantiveram-se acima da meta para a inflação.
As expectativas de inflação para 2025 e 2026 apuradas pela pesquisa Focus permanecem em valores acima da meta, situando-se em 5,1% e 4,4%, respectivamente. A projeção de inflação do Copom para o primeiro trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária, situa-se em 3,4% no cenário de referência (Tabela 1).
Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, seguem mais elevados do que o usual. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado; (ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo; e (iii) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada. Entre os riscos de baixa, ressaltam-se (i) uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação; (ii) uma desaceleração global mais pronunciada decorrente do choque de comércio e de um cenário de maior incerteza; e (iii) uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários.
O Comitê tem acompanhado, com particular atenção, os anúncios referentes à imposição pelos EUA de tarifas comerciais ao Brasil, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza. Além disso, segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal impactam a política monetária e os ativos financeiros. O cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, resiliência na atividade econômica e pressões no mercado de trabalho. Para assegurar a convergência da inflação à meta em ambiente de expectativas desancoradas, exige-se uma política monetária em patamar significativamente contracionista por período bastante prolongado.
O Copom decidiu manter a taxa básica de juros em 15,00% a.a., e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego.
O cenário atual, marcado por elevada incerteza, exige cautela na condução da política monetária. Em se confirmando o cenário esperado, o Comitê antecipa uma continuação na interrupção no ciclo de alta de juros para examinar os impactos acumulados do ajuste já realizado, ainda por serem observados, e então avaliar se o nível corrente da taxa de juros, considerando a sua manutenção por período bastante prolongado, é suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta. O Comitê enfatiza que seguirá vigilante, que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados e que não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso julgue apropriado.
Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Gabriel Muricca Galípolo (presidente), Ailton de Aquino Santos, Diogo Abry Guillen, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David, Paulo Picchetti, Renato Dias de Brito Gomes e Rodrigo Alves Teixeira.
Tabela 1
Projeções de inflação no cenário de referência
Variação do IPCA acumulada em quatro trimestres (%)
Índice de preços2025 20261º tri 2027
IPCA4,93,63,4
IPCA livres5,13,53,3
IPCA administrados4,44,03,9
No cenário de referência, a trajetória para a taxa de juros é extraída da pesquisa Focus e a taxa de câmbio parte de R$5,55/US$, evoluindo segundo a paridade do poder de compra (PPC). O preço do petróleo segue aproximadamente a curva futura pelos próximos seis meses e passa a aumentar 2% ao ano posteriormente. Além disso, adota-se a hipótese de bandeira tarifária “verde” em dezembro de 2025 e de 2026. O valor para o câmbio foi obtido pelo procedimento usual.
Infomoney - SP 31/07/2025
A Rio Tinto registrou seu menor lucro no primeiro semestre em cinco anos e anunciou seu menor dividendo intermediário em sete anos, nesta quarta-feira, devido à queda dos preços do minério de ferro, ao mesmo tempo em que sinalizou o aumento dos custos em suas instalações em Pilbara.
A mineradora, maior produtora de minério de ferro do mundo, divulgou lucros subjacentes de US$4,81 bilhões para os seis meses encerrados em 30 de junho, uma queda de 16% em relação ao ano anterior e um pouco abaixo do consenso da Visible Alpha de US$5,05 bilhões.
O desempenho mais fraco para o primeiro semestre desde 2020 ocorreu porque os preços recebidos pelo minério de ferro caíram 15%, embora isso tenha sido parcialmente compensado pelos preços mais altos do cobre, bauxita, alumina, alumínio e ouro.
A mineradora, que está cada vez mais mudando seu foco para o cobre, declarou um dividendo intermediário de US$1,48 por ação para o primeiro semestre, menor do que os US$1,77 que distribuiu no ano passado.
Ainda assim, o CEO que está deixando o cargo, Jakob Stausholm, disse que a empresa estava em “boa forma”, com muitas oportunidades pela frente para o chefe do setor de minério de ferro, Simon Trott, que assumirá o comando a partir de 25 de agosto.
Stausholm disse que suas principais realizações incluíram o progresso da Rio Tinto no sentido de reduzir as emissões de carbono em 50% até o final da década, depois de ter assumido o cargo principal quando a companhia estava “de joelhos” após a destruição de um importante local aborígene pela mineradora. “Às vezes, isso torna você humilde.”
Os custos aumentaram durante seu mandato, mas a mineradora estava trabalhando para aumentar a eficiência operacional enquanto se preparava para trazer novos projetos de lítio e cobre, disse Stausholm, recusando-se a comentar sobre qualquer possível redução de pessoal.
“Não se trata de corte de custos, mas sim de como crescer sem aumentar a base de custos”, disse ele em uma entrevista coletiva.
Para os seis meses encerrados em 30 de junho, os custos unitários da Rio Tinto em suas principais operações de minério de ferro em Pilbara, na Austrália Ocidental, subiram para US$ 24,3 por tonelada métrica úmida (wmt), de US$23,2 por wmt no ano passado, devido a embarques menores e ao impacto dos ciclones.
Para todo o ano de 2025, a Rio Tinto havia previsto anteriormente uma faixa de US$23 a US$24,5 por wmt.
Os preços do minério de ferro diminuíram com a redução da produção de aço na China, principal consumidor, e com o aumento da oferta da Austrália, Brasil e África do Sul no mercado global.
As expectativas de que a China reduzirá o excesso de capacidade no setor siderúrgico e o possível reabastecimento poderão sustentar uma alta nos preços para US$100 por tonelada métrica no final do ano, de acordo com uma nota do Morgan Stanley.
A Rio Tinto manteve sua meta de embarque para o ano inteiro em Pilbara no limite inferior de sua faixa de previsão de 323 milhões de toneladas (Mt) a 338 Mt.
No lítio, os preços começaram a se recuperar de uma queda, e a Rio Tinto tem visto uma demanda robusta do setor de baterias estacionárias, que dobrou em relação ao ano anterior, disse Stausholm.
Ele se recusou a comentar sobre o impacto das tarifas de cobre nos EUA, mas disse que o crescimento da demanda devido à energia exigida pelos data centers poderia dobrar a demanda de cobre dos EUA para 4 milhões de toneladas.
InfraRoi - SP 31/07/2025
A CSN Mineração está usando os dados para aumentar a eficiência na gestão de seus 550 equipamentos em operação na mina. Através do Qlik Predict, a mineradora está analisando automaticamente cerca de 2 mil laudos de óleos por mês para estabelecer a ordem de manutenção preditiva de equipamentos e evitar paradas.
Durante o The AI Reality Tour, evento realizado pela Qlik na terça-feira (29/7), João Vitor Cunha, analista de BI da CSN Mineração, explicou que a estratégia de manutenção da companhia leva em conta a análise do óleo dos equipamentos (escavadeiras, carregadeiras e caminhões fora de estrada) para estabelecer a saúde dos componentes de cada um deles.
A análise é feita por laboratórios parceiros, que entregam os 2 mil laudos por mês, em média, classificando em quatro níveis de criticidade: normal, monitorar, crítico e urgente. Esses documentos não são enviados de forma que seja possível classificá-los, então cabia aos únicos dois analistas de laboratório que trabalham na CSN separarem um a um cada laudo.
Riscos altos na saúde de equipamentos forçaram inovação na CSN
Cunha disse que a demanda era muito grande para eles e acarretava uma tomada de decisão muito lenta, aumentando os riscos de parada não planejada. Por isso, a CSN viu a oportunidade de usar a análise de dados a seu favor para classificar os casos mais perigosos.
O software separa os casos classificados como críticos e urgentes, que representam 30% dos laudos, para que apareçam primeiro na tela dos analistas. Ainda há uma sub-classificação por criticidade do componente examinado – motores em estado crítico ou urgente ficam na frente da fila, por exemplo.
Como tudo começou
A CSN usa o Qlik Sense desde 2019, quando começou com um pequeno caso de uso no Setor Jurídico. De lá para cá, a empresa adotou a versão SaaS (software como serviço) da solução e ampliou o número de licenças para 3 mil.
A intenção era de que qualquer área pudesse usar a análise de dados a seu favor, como contou Ricieri Del Massa, especialista em TI e Análise de Dados da CSN Mineração. “A CSN queria que qualquer analista de negócio pudesse criar modelos preditivos usando IA no Qlik Predict”, diz ele.
Por isso, ele buscou usuários na CSN que já tinham experiência com soluções da Qlik e lançou um curso. A primeira turma teve 20 pessoas para serem treinadas na plataforma e, após a conclusão, disponibilizaram mentores para ajudar a colocar projetos de dados em produção. A iniciativa com a manutenção foi apenas um dos casos de uso.
Brasil Mineral - SP 31/07/2025
Trump impõe tarifa de 50% sobre diversos produtos minerais, enquanto minério de ferro e ferro-gusa são isentos.
O decreto "Addressing Threats to The United States by the Government of Brazil", assinado pelo presidente americano Donald Trump em 30 de julho de 2025, impõe tarifas adicionais de 50% sobre produtos brasileiros, mas preserva estrategicamente os principais insumos da cadeia siderúrgica nacional. A medida, que entra em vigor no dia 6 de agosto, revela uma clara divisão: matérias-primas minerais essenciais ficaram protegidas, enquanto produtos de maior valor agregado enfrentarão sobretaxas significativas.
Justificada como resposta a uma "emergência nacional", a decisão americana mostra uma estratégia calculada de manter acesso privilegiado a insumos críticos para sua indústria, ao mesmo tempo em que protege setores manufatureiros domésticos de produtos mais elaborados.
PRODUTOS MINERAIS ISENTOS (sem taxa extra):
Minérios e concentrados fundamentais:
Minério de ferro não aglomerado (código 2601.11.00) Minério de ferro aglomerado (código 2601.12.00) Minérios de estanho e concentrados (código 2609.00.00) Mica bruta (código 2525.10.00)
Cadeia siderúrgica completa:
Ferro-gusa não ligado com 0,5% ou menos de fósforo (código 7201.10.00) Ferro-gusa não ligado com mais de 0,5% de fósforo (código 7201.20.00) Ferro-gusa ligado em blocos ou formas primárias (código 7201.50.30) Spiegeleisen em blocos ou formas primárias (código 7201.50.60) Produtos ferrosos obtidos por redução direta do minério de ferro (código 7203.10.00) Produtos ferrosos esponjosos e ferro com pureza mínima de 99,94% (código 7203.90.00)
Ferroligas estratégicas:
Ferroníquel (código 7202.60.00) Ferronióbio com menos de 0,02% de fósforo/enxofre ou menos de 0,4% de silício (código 7202.93.40) Ferronióbio, outras especificações (código 7202.93.80)
Metais básicos processados:
Silício contendo menos de 99,99% mas não menos de 99% (código 2804.69.10) Silício contendo menos de 99% (código 2804.69.50) Resíduos e sucata de estanho (código 8002.00.00) Óxidos de estanho (código 2825.90.20) Cloretos de estanho (código 2827.39.25)
Produtos químicos da mineração:
Óxido de alumínio, exceto corindo artificial (código 2818.20.00) Hidróxido de potássio - potassa cáustica (código 2815.20.00) 1,2-dicloropropano e diclorobutanos (código 2903.19.05) Hexacloroetano e tetracloroetano (código 2903.19.10) Cloreto de sec-butila (código 2903.19.30) Outros hidrocarbonetos clorados saturados (código 2903.19.60)
Metais preciosos:
Barras de prata e dore (código 7106.91.10) Ouro não monetário, barras e dore (código 7108.12.10)
Fertilizantes específicos:
Fertilizantes em tabletes ou formas similares, pacotes até 10kg (código 3105.10.00) Fertilizantes contendo nitrogênio, fósforo e potássio (código 3105.20.00) Fertilizantes contendo fósforo e potássio (código 3105.60.00)
PRODUTOS MINERAIS QUE SERÃO TAXADOS (50%):
Observação importante: O decreto lista especificamente apenas os produtos ISENTOS. Todos os demais produtos minerais brasileiros não listados acima estarão sujeitos à tarifa adicional de 50%. Isso inclui:
Metais não-ferrosos processados:
Alumínio e suas ligas (tubos, perfis, chapas) Cobre e produtos de cobre elaborados Zinco e produtos de zinco Chumbo e produtos de chumbo Níquel (exceto ferroníquel) Outros metais não-ferrosos manufaturados
Produtos siderúrgicos elaborados:
Aços especiais e inoxidáveis Produtos laminados de aço Tubos e conexões de aço (não isentos especificamente) Produtos forjados e usinados Estruturas metálicas Ferramentas e implementos de aço
Materiais de construção mineral:
Rochas ornamentais não listadas especificamente Agregados beneficiados Materiais cerâmicos industriais Produtos de concreto Materiais refratários elaborados Telhas e tijolos especiais
Minerais industriais processados:
Caulim beneficiado Feldspato processado Quartzo industrial elaborado Bentonita processada Talco industrial Barita beneficiada Fluorita processada Grafita elaborada
Produtos químicos minerais:
Fertilizantes não especificados nas isenções Produtos químicos derivados de minerais Pigmentos minerais Cargas minerais para indústria Abrasivos minerais
Gemas e materiais preciosos processados:
Pedras preciosas lapidadas Pedras semipreciosas trabalhadas Produtos de joalheria com minerais
Produtos de mineração de alta tecnologia:
Terras raras processadas Minerais para eletrônicos Materiais para baterias (exceto lítio básico) Minerais para energia renovável
Outros produtos minerais elaborados:
Vidros especiais Fibras minerais Materiais compostos com base mineral Produtos de minerais não-metálicos manufaturados
A estratégia americana fica evidente na análise das isenções: produtos que alimentam diretamente a cadeia industrial americana foram preservados. O minério de ferro garante o funcionamento das siderúrgicas, as ferroligas são essenciais para aços especiais, e os metais preciosos têm valor estratégico para reservas nacionais.
Em contrapartida, produtos que representam competição direta com a indústria americana ou demonstram maior agregação de valor brasileiro foram penalizados. Essa divisão força uma reflexão sobre a estratégia exportadora brasileira: enquanto commodities básicas mantêm acesso livre, a industrialização desses insumos encontra barreiras no mercado americano.
Para o setor mineral brasileiro, isso significa uma pressão para diversificar mercados de destino para produtos elaborados, enquanto mantém a posição competitiva em insumos básicos. A decisão também pode acelerar investimentos em processamento doméstico de produtos destinados a outros mercados internacionais.
IstoÉ Dinheiro - SP 31/07/2025
Uma disputa pelo mercado brasileiro entre as principais montadoras de carros que atuam no país colocou, de um lado, a fabricante chinesa BYD, com presença cada vez maior no Brasil, contra as montadoras Toyota, General Motors, Volkswagem e Stellantis.
Nesta semana, essas montadoras representadas pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), com mais de sete décadas de atuação no Brasil, divulgaram carta enviada, ainda em junho, para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
As empresas alegam que investimentos e empregos estariam em risco caso o governo acolha a um pleito da fabricante chinesa para reduzir, temporariamente, a tarifa para importação de carros desmontados de veículos elétricos ou híbridos.
“Ao contrário do que querem fazer crer, a importação de conjuntos de partes de peças não será uma etapa de transição para um novo modelo de industrialização, mas representará um padrão operacional que tenderá a se consolidar e prevalecer, reduzindo a abrangência do processo produtivo nacional”, diz a carta enviada a Lula e divulgada em uma rede social pelo presidente da Volkswagem, Ciro Possobom.
A carta destacou que a indústria planeja investir R$ 180 bilhões nos próximos anos. “Esse ciclo virtuoso de fortalecimento da indústria nacional será colocado em risco e sofrerá forte abalo se for aprovado o incentivo à importação de veículos desmontados para serem acabados no país”, diz ainda a carta.
Em nota encaminhada à Agência Brasil, a fabricante chinesa BYD disse que a posição das montadoras da Anfavea é uma reação contra a inovação e a abertura do mercado do Brasil.
“É uma espécie de chantagem emocional com verniz corporativo, repetida há décadas pelos barões da indústria para proteger um modelo de negócio que deixou o consumidor brasileiro como último da fila da modernidade. A ironia é que enquanto as cartas se empilham em Brasília, os consumidores já tomaram sua decisão”, provocou a companhia.
Ainda segundo a BYD, o que as concorrentes chamam de prática desleal é apenas concorrência. “Agora, chega uma empresa chinesa que acelera fábrica, baixa preço e coloca carro elétrico na garagem da classe média, e os dinossauros surtam”, completou.
Camex
O Comitê-Executivo de Gestão (Gecex) da Câmara de Comércio Exterior (Camex), ligado ao Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), discute nesta quarta-feira (30), em reunião extraordinária, os pleitos das montadoras.
De um lado, as montadoras tradicionais reunidas em torno da Anfavea querem antecipar, de 2028 para 2026, a elevação das tarifas de importação para carros elétricos desmontados, o que poderia prejudicar a BYD.
De outro lado, a fabricante chinesa pede a redução temporária do imposto de importação de veículos desmontados alegando que precisam de tempo para nacionalizar a produção.
BYD
Segundo a BYD, a redução temporária de imposto solicitada pela companhia é razoável uma vez que não faz sentido aplicar o mesmo nível de tributação sobre veículos 100% prontos trazidos do exterior e sobre veículos que são montados no país.
“Isso não é nenhuma novidade, outras montadoras já adotaram a mesma prática antes de ter a produção completa local. O incômodo das concorrentes não tem a ver com impostos, nem com montagem, nem com empregos. Tem a ver com a perda de protagonismo. Com o fato de que um novo player chegou oferecendo mais e cobrando menos”, completou.
A BYD sustenta que a redução das tarifas seria temporária, apenas enquanto a companhia não completa as obras da Fábrica em Camaçari (BA). “Em menos de um ano e meio, já está finalizando a primeira etapa das obras da fábrica em Camaçari (BA). Tudo dentro do planejamento desde o começo”, disse.
Fabricação local
O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), Geraldo Alckimin, explicou que o governo reunido na Camex vai discutir possíveis mudanças na fase de transição para a elevação das tarifas de importação de carros elétricos ou híbridos.
Alckimin disse que, em 2023, quando Lula assumiu, a alíquota de importação de veículos prontos do exterior era de 35% e de veículos elétricos e híbridos era de 0%. Por isso, o governo decidiu fazer uma transição para acabar com a isenção aos poucos, ano a ano, até chegar aos 35% de imposto cobrado dos demais veículos importados.
“Faça sua fábrica no Brasil, fabrique no Brasil, porque a alíquota vai ser igual a carro em combustão, que sempre foi de 35%, conforme a OMC [Organização Mundial da Saúde]”, disse o vice-presidente em coletiva de imprensa, nessa segunda-feira (28).
Segundo Alckimin, a estratégia foi um sucesso. “Você tem inúmeras empresas abrindo fábricas no Brasil. Você tem a chinesa GWM, em Indianópolis (SP), que comprou a fábrica que estava fechada na Mercedes-Benz. Teve a BYD em Camaçari (BA), que adquiriu a fábrica que era da Ford”, completou.
O ministro disse que uma hipótese que está sendo estudada na Camex é ampliar a cota de isenção para importação porque argumenta-se que é preciso de tempo para nacionalizar a produção.
Uma cota que era de 50 mil carros isentos, no primeiro ano, cai para 40 mil no segundo, e 30 mil no terceiro ano. “Você tem um imposto crescente e uma cota decrescente”, explicou.
Segundo ele, a Camex pode decidir uma solução intermediária entre o pleito da BYD e das montadoras da Anfavea.
“Atende de um lado, antecipando a alíquota de 35% para 2026, que é o pleito da Anfavea. E, ao invés de atender o pleito de redução tarifária, eu estabeleço uma cota até 1º de julho de 2026. Isso vai ser discutido no Gecex e depois vai ser discutido na Camex, que são 10 ministérios”, finalizou.
Monitor Digital - RJ 31/07/2025
No início deste mês, o navio BYD Shenzhen, considerado o segundo maior cargueiro de automóveis do mundo em sua categoria, partiu da China rumo à Europa transportando 6.817 veículos de nova energia (NEVs) da marca BYD, marcando uma mudança significativa no maior mercado automotivo do mundo, antes dominado por marcas europeias.
Duas semanas depois, a montadora chinesa BYD atingiu outro marco importante ao produzir seu décimo terceiro milionésimo veículo de nova energia. Os números são reveladores: somente em 2024, o país produziu e vendeu mais de 12 milhões de NEVs, segundo dados oficiais.
A transformação da China, de novata no setor automotivo a potência em veículos elétricos (EVs), foi conduzida ao longo de décadas. Em 1985, a montadora alemã Volkswagen estabeleceu, em parceria com a SAIC Motor, a primeira joint venture automotiva sino-estrangeira em Shanghai. Seu modelo Santana vendeu 10 mil unidades em apenas dois anos.
Os carros europeus foram, por muito tempo, referência para as montadoras chinesas — algo que a BYD vivenciou diretamente. No início de 2004, quando ainda era conhecida como fabricante de baterias, a empresa viu seu primeiro protótipo, codinome 316, ser descartado por concessionários como “sem futuro” após uma avaliação. O revés levou a empresa a adotar uma estratégia agressiva de aprendizado.
“Compramos e desmontamos dezenas de modelos líderes de mercado para aprender como os veículos de sucesso eram projetados”, relembrou Wang Chuanfu, presidente da BYD. Como novata na indústria automobilística, a empresa apostou numa abordagem de “duas frentes”: aprender a fabricar veículos a combustão ao mesmo tempo que desenvolvia tecnologia de veículos elétricos.
Esse foco colocou a China na vanguarda da revolução elétrica. O país estabeleceu uma cadeia industrial completa, abrangendo veículos, baterias, sistemas de controle de motores elétricos, tecnologia de direção autônoma, painéis inteligentes, infraestrutura de recarga e o mercado automotivo pós-venda. Esse ecossistema oferece uma “solução chinesa” para o desenvolvimento automotivo global.
A cooperação China-Europa tem aberto novas possibilidades para o setor. No seu recente evento Chassis Tech Day, realizado em sua sede em Friedrichshafen, o grupo alemão ZF apresentou seu mais recente sistema de direção por fios (steer-by-wire), adotado pela montadora chinesa NIO. Por meio de parcerias com empresas chinesas, a ZF aproveita o ritmo acelerado da inovação na China para transformar tecnologias-chave em soluções prontas para o mercado, gerando benefícios mútuos.
“Para a ZF, a China é nossa academia de treinamento”, afirmou Peter Holdmann, membro do conselho da empresa, descrevendo o mercado como fonte de desafios e progresso diante da transição da indústria para a mobilidade elétrica e inteligente. “Temos muitos clientes na China, e usamos a velocidade de inovação deles para acelerar a nossa.”
Objetivos comuns de descarbonização também fortalecem a parceria. A fabricante chinesa de baterias Sunwoda, sediada em Shenzhen e fornecedora de marcas como Volkswagen e Volvo, está se adaptando às novas normas da União Europeia, que impõem requisitos mais rigorosos a todas as baterias vendidas no bloco. As regras abrangem substâncias perigosas, pegada de carbono, desempenho eletroquímico, durabilidade, rotulagem e outros aspectos importantes.
“Baterias exigem descarbonização em toda a cadeia industrial”, afirmou Liang Rui, vice-presidente da Sunwoda. “Como fornecedores, temos essa responsabilidade.”
A indústria automotiva chinesa também observa uma redefinição nas parcerias entre montadoras nacionais e estrangeiras. Segundo Franz Raps, reitor da Faculdade de Transporte Urbano e Logística da Universidade de Tecnologia de Shenzhen, há uma década a cooperação sino-alemã seguia o padrão onde a Alemanha fornecia a tecnologia e a China cuidava da produção.
“Hoje, a China se desenvolve rapidamente e está muito mais avançada em ciência e tecnologia. Acredito que a cooperação sino-alemã precisa encontrar um novo ponto de equilíbrio”, afirmou Raps.
Valor - SP 31/07/2025
A Mercedes-Benz alertou que a receita será significativamente menor do que no ano passado, já que as tarifas afetam as vendas de seus carros e vans.
A fabricante alemã de carros de luxo havia afirmado anteriormente que não poderia oferecer projeções financeiras com o nível de certeza necessário em meio à volatilidade do mercado decorrente das tarifas. A empresa afirmou na quarta-feira que agora espera vender significativamente menos carros do que no ano passado.
As vendas de carros no segundo semestre do ano ficarão em torno do mesmo nível do primeiro semestre, afirmou a empresa.
Devido à queda esperada nas vendas unitárias e aos preços mais fracos do que o esperado, bem como às tarifas de importação incluídas pela primeira vez nas projeções, o retorno ajustado sobre as vendas de carros está previsto para ficar na faixa de 4% a 6%.
Isso se compara à projeção dada no início do ano, que previa uma receita do grupo ligeiramente menor, com um retorno ajustado sobre as vendas de carros de 6% a 8%.
A atualização das diretrizes ocorre após os EUA e a UE terem fechado, no domingo, um acordo que aplicará uma tarifa de 15% aos carros enviados da Europa para os EUA. Isso representa uma queda acentuada em relação aos 27,5% que as montadoras europeias pagam desde abril, mas ainda representa um aumento considerável em relação aos 2,5% aplicados antes do início do segundo mandato do presidente Trump.
A UE cobra uma tarifa de 10% sobre carros fabricados nos EUA e vendidos para o bloco, e ainda não está claro se a tarifa permanecerá em vigor após o acordo de domingo. Se for descontinuado, a Mercedes poderá se beneficiar, já que produz alguns veículos nos EUA para exportação.
A empresa está trabalhando em um amplo programa de desempenho, anunciado no início deste ano, que cortará empregos e transferirá parte da produção de sua sede na Alemanha para países de menor custo. A empresa planeja aumentar a competitividade por meio de um corte de 10% nos custos de produção nos próximos dois anos.
"Estamos nos adaptando às novas realidades geopolíticas, utilizando nossa presença global de produção de forma inteligente e executando nosso programa de desempenho de alto nível, que vai além das medidas de eficiência, para aumentar a resiliência da nossa empresa", disse o CEO Ola Kaellenius.
A demanda dos clientes deverá permanecer bastante fraca, com a Mercedes prevendo que o mercado automotivo global e europeu se manterá no nível do ano anterior em 2025.
O mercado americano deverá apresentar ligeira queda, enquanto o chinês deverá ficar ligeiramente acima do nível do ano anterior, afirmou a empresa. No entanto, a intensa concorrência de preços na China, especialmente por parte de fabricantes locais, deverá levar a um desenvolvimento significativamente mais fraco das vendas unitárias para muitos fabricantes estrangeiros.
A empresa reportou um lucro líquido de 915 milhões de euros (US$ 1,06 bilhão) no segundo trimestre, abaixo dos 3,02 bilhões de euros do ano anterior, com a receita caindo 9,8%, para 33,15 bilhões de euros.
Custos com tarifas, volumes menores, preços mais baixos e custos relacionados às suas medidas de eficiência influenciaram os resultados, afirmou a empresa.
Analistas consultados pela FactSet esperavam um lucro de 1,52 bilhão de euros, com receita de 33,69 bilhões de euros.
A empresa reportou um retorno ajustado sobre as margens de vendas para sua unidade de automóveis de 5,1%, abaixo dos 10,2%.
Automotive Business - SP 31/07/2025
Festa em Camaçari (BA). O governo federal zerou a alíquota do imposto de importação que incide sobre veículos montados ou parcialmente montados no Brasil, os quais utilizam kits de componentes importados. Só que a curto prazo.
Com a medida, montadoras que utilizam os processos de montagem SKD e CKD, como é o caso da BYD, deixam de recolher por seis meses o tributo, que antes tinha uma alíquota de 18% e 20%, respectivamente.
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Vale lembrar que o a montadora chinesa havia solicitado uma redução para 5%, por um prazo de 12 meses a partir de julho. O governo, portanto, encontrou um meio termo: zerou a alíquota, mas reduziu também o tempo de vigência da medida, alé de estipular uma cota de US$ 463 milhões em importações.
Fogo no parquinho industrial em torno do tema
Atender ao pleito da BYD, feito durante o segundo trimestre do ano junto ao Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Camex), pode ter sido um balde de água fria nas pretensões das montadoras tradicionais em solo brasileiro, que lutaram em Brasília (DF) para demover o governo da ideia.
A discussão, inclusive, ficou mais acalorada nos últimos dias, com uma espécie de batalha de mensagens sem precedentes.
De um lado, as montadoras se uniram em carta endereçada ao presidente da república e ao ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), indicando porque o governo deveria vetar esse tipo de pedido.
Registraram no documento a contumaz o corte de investimentos e consequente corte de empregos. Outros interlocutores, como os governadores dos estados do Sul e Sudeste, e entidades de classe, como a AEA, também se manifestaram por meio de carta.
A BYD, por sua vez, publicou a sua nota a respeito do tema, na qual destacou um certo clima de nós contra eles que o debate gerou no mundo automotivo. Se auto-intitulou meteoro e chamou as montadoras já estabelecidas aqui de dinossauros.
Anfavea se mostra satisfeita
Dada a celeuma, é notório que o governo sinalizou com uma medida que pudesse de alguma forma agradar a todos diminuiu o imposto como a montadora chinesa queria, mas não por tão longo tempo, evitando ferir os interesses das montadoras mais antigas em solo nacional.
Vale lembrar, ainda, que essa parcela da indústria local foi contemplada com o IPI zero para modelos compactos recentemente, uma espécie socorro a essas montadoras que reiteradamente reclamam sobre a falta de movimento no varejo por causa dos juros altos e crédito raro.
A Anfavea, que reúne as fabricantes de veículos do país, inclusive, agradeceu ao Governo Federal. Por meio de um vídeo gravado para os canais digitais, o presidente da entiodade, Igor Calvet, afirmou que o executivo levou em conta as premissas básicas de sua política industrial.
O prazo de seis meses com uma cota de valor pré-estabelecido é o máximo aceitável sem colocar em risco os investimentos atuais e futuros da cadeia automotiva nacional, afrimou Igor.
O executivo também deixou claro que a associação não está disposta a abrir esa discussão em um futuro breve. E abriu os braços para a BYD, e outras fabricantes, se associarem à Anfavea.
Esperamos que essa discussão esteja encerrada, sem qualquer possibilidade de renovação, e que novos atores e entrantes no mercado possam ingressar no Brasil de forma justa e competitiva. Todos serão muito bem recebidos.
Imposto de importação de eletrificados é antecipado
Nessa mesma toada, o governo também deliberou na quarta-feira a favor das montadoras com produção em curso no país. Antecipou de julho de 2028 para janeiro de 2027 a alíquota de 35% que incide sobre os veículos importados eletrificados já montados esse, um pleito antigo das fabricantes representadas pelas Anfavea.
Resta agora saber como essas empresas vão se manifestar a respeito da decisão do governo. O incômodo no setor foi aumentando na mesma proporção em que a BYD desembarcava veículos elétrico importados nos portos brasileiros aos montes.
Ficou ainda maior quando veio à tona o pedido da montadora chinesa para que o imposto para peças SKD justamente o modelo inicial de produção que pretende iniciar aqui no país fosse reduzido para 5%.
IstoÉ Dinheiro - SP 31/07/2025
A Ford Motor projetou um impacto negativo de US$ 2 bilhões em seu lucro em 2025, após anunciar prejuízo no trimestre com uma conta salgada por pagamentos tarifários sobre peças importadas de fora dos EUA.
A montadora americana informou que registrou prejuízo líquido de US$ 29 milhões nos três meses até junho, período no qual desembolsou mais de $800 milhões em tarifas, apesar de fabricar a maioria de seus veículos nos Estados Unidos. No mesmo período de 2024, a empresa registrou lucro de US$ 1,83 bilhão.
A conta de tarifas veio de peças importadas de fora do país, bem como de taxas sobre aço e alumínio. Esse impacto ajudou a eliminar o lucro líquido da empresa no segundo trimestre.
A empresa mencionou que os custos relacionados a tarifas reduzirão cerca de US$ 2 bilhões em termos líquidos de seus ganhos anuais, mais do que os US$ 1,5 bilhão previsto há três meses.
Executivos afirmaram que estão pressionando a administração Trump para reduzir impostos sobre peças e materiais. “Eles deixaram claro que a Ford, como a montadora mais americana, não deve ser prejudicada”, disse a diretora financeira Sherry House. “Estamos otimistas.”
A receita da montadora totalizou US$ 50,2 bilhões, um aumento de 5% sobre o faturamento de US$ 47,8 bilhões um ano atrás.
Perto das 17h35 (horário de Brasília), as ações da empresa cediam 3,13% no after hours, prolongando a baixa de 1,90% da sessão regular da Bolsa de Nova York.
Valor - SP 31/07/2025
Marca chinesa líder do mercado de carros elétricos afirma que está sendo bem recebida pelos mesmo consumidores que, por décadas, foram obrigados a pagar caro por tecnologia velha e design preguiçoso
A BYD enviou à imprensa na manhã desta quarta-feira (30) uma resposta à carta enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva por quatro grandes montadoras - Volkswagen, Toyota, Stellantis e General Motors.
As quatro montadoras pediram para que o governo não baixe o imposto de importação de carros semidesmontados, como pede a BYD. E cogitaram fazer demissões em massa e suspender robustos programas de investimento em curso.
Na resposta, a BYD lamenta que as quatro montadoras tenham “implorado ao presidente para abortar a inovação”.
Com o título “Por que a BYD incomoda tanto?” a marca chinesa, líder do mercado de carros elétricos, diz que “o problema é que a BYD está sendo bem recebida pelos mesmo consumidores que, por décadas, foram obrigados a pagar caro por tecnologia velha e design preguiçoso”.
E, dessa forma, a BYD tenta justificar seu pedido para redução temporária do Imposto de Importação dos carros semidesmontados que pretende trazer da China para posterior acabamento na linha de montagem que está concluindo em Camaçari (BA).
Existe a possibilidade de a Câmara de Comércio Exterior (Camex) anunciar nesta quarta-feira a redução do tributo de 18% e 12% para 10%, atendendo ao pedido da BYD, que diz precisar dessa redução por um ano até que a sua fábrica na Bahia esteja pronta para produzir com componentes nacionais.
“O que a BYD propõe ao Brasil não é um atalho nem uma esperteza fiscal. É uma visão de futuro com veículos mais limpos, mais seguros, mais conectados e com custo-benefício justo”, destaca o texto da BYD.
Leia a carta na íntegra:
Por que a BYD incomoda tanto?
Empresa que trouxe carros tecnológicos, sustentáveis e mais acessíveis é atacada por concorrentes obsoletos
Dizem que o futuro chega de repente. Mas, às vezes, o que chega de repente é o e-mail. O da vez foi uma carta enviada por quatro das maiores montadoras brasileiras ao Presidente da República, implorando para ele abortar a inovação. É isso mesmo: pedem, com todas as letras, que o governo impeça a redução temporária dos impostos para quem ousa oferecer carros melhores por um preço mais justo.
Assinada por representantes da Toyota, Stellantis, Volkswagen e General Motors, a carta tem o tom dramático de quem acaba de ver um meteoro no céu. O problema não é o meteoro, claro. O problema é que ele está sendo bem recebido pelos consumidores — aqueles mesmos que, por décadas, foram obrigados a pagar caro por tecnologia velha e design preguiçoso.
Agora, chega uma empresa chinesa que acelera fábrica, baixa preço e coloca carro elétrico na garagem da classe média, e os dinossauros surtam. Não foi por acaso que uma concorrente reduziu o valor de um modelo elétrico em mais de 100 mil reais depois da chegada da BYD. Por que antes custava tanto?
A carta fala em “concorrência desleal”. Porque nada é mais desleal do que alguém jogar o jogo — e ganhar. Nada mais injusto do que montar um carro no Brasil sob o regime autorizado pelo governo, com data marcada para nacionalizar a produção, e ainda assim entregar um produto que as “locais” não conseguem nem sonhar em oferecer.
A reação da Anfavea e seus associados, infelizmente, não é novidade. Trata-se do velho roteiro de sempre: diante de qualquer sinal de abertura de mercado ou inovação, surgem as ameaças de demissões em massa, fechamento de fábricas e o fim do mundo como conhecemos. É uma espécie de chantagem emocional com verniz corporativo, repetida há décadas pelos barões da indústria para proteger um modelo de negócio que deixou o consumidor brasileiro como último da fila da modernidade.
A ironia é que enquanto as cartas se empilham em Brasília, os consumidores já tomaram sua decisão. Basta olhar os comentários nas redes sociais da própria Anfavea: “Lutar por carro mais barato vocês não lutam, agora querem nosso apoio pra que?”. Ou ainda: “Sempre vou dizer o seguinte: se a Anfavea está tão incomodada, é porque o outro lado vale a pena”. Os brasileiros querem andar para frente e não seguir em marcha a ré.
A redução temporária de imposto que a BYD pleiteia segue uma lógica simples e razoável: não faz sentido aplicar o mesmo nível de tributação sobre veículos 100% prontos trazidos do exterior e sobre veículos que são montados no Brasil, com geração de empregos locais, movimentação da cadeia logística e pagamento de encargos. Isso não é nenhuma novidade, outras montadoras já adotaram a mesma prática antes de ter a produção completa local. E a BYD está fazendo isso. Em menos de um ano e meio, já está finalizando a primeira etapa das obras da fábrica em Camaçari (BA), no mesmo local onde outra montadora, que também era tradicional, desistiu do Brasil. Apenas o galpão de montagem final já é mais do que a metade do tamanho da antiga fábrica inteira. E o contrato com o Governo da Bahia já previa essa fase inicial de montagem enquanto o restante da estrutura é finalizado. Nada foi alterado. Tudo dentro do planejamento desde o começo.
O incômodo das concorrentes não tem a ver com impostos, nem com montagem, nem com empregos. Tem a ver com a perda de protagonismo. Com o fato de que um novo player chegou oferecendo mais e cobrando menos. Com o fato de que a tecnologia finalmente deixou de ser um luxo para poucos e virou realidade para muitos.
O que a BYD propõe ao Brasil não é um atalho nem uma esperteza fiscal. É uma visão de futuro com veículos mais limpos, mais seguros, mais conectados e com custo-benefício justo.
Ajudar o Brasil a acelerar essa transição é um movimento estratégico não só para a marca, mas para o país.
O Presidente deveria ouvir essas cartas — e usá-las como prova de que está no caminho certo. Porque se os dinossauros estão gritando, é sinal de que o meteoro está funcionando.
Valor - SP 31/07/2025
Pressionado pela Anfavea de um lado e BYD do outro, MDIC atendeu em parte a chinesa e fixou cotas que incluem toda cadeia
Diante de lobbies armados por duas frentes - de um lado, a chinesa BYD pedindo redução de imposto para carros importados semidesmontados por 12 meses e do outro, a indústria já instalada ameaçando parar de investir e demitir caso o pleito fosse atendido - o governo optou por uma terceira via. Concedeu isenção tributária para veículos desmontados e semidesmontados por seis meses. E, para evitar a importação em grandes volumes, no período, fixou uma cota a ser distribuída entre as empresas interessadas.
A decisão foi tomada pelo Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex-Camex), em uma reunião nesta quarta-feira (30), cercada de apreensão de todos os lados da indústria automotiva.
Segundo nota divulgada pelo Ministério da Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), foi fixada uma cota total de US$ 463 milhões, a ser ainda dividida entre empresas que desejam importar veículos desmontados ou semidesmontados.
Levando em conta um valor de importação entre US$ 17 mil e US$ 20 mil por veículo, segundo cálculos de fontes do setor, isso significa a entrada, sem imposto, durante seis meses, de algo em torno de 25 mil veículos. O total fica abaixo do volume que poderia interessar apenas à BYD. A marca chinesa tem vendido em torno de 8 mil unidades por mês.
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) comemorou a decisão da Camex. Pouco depois de as medidas serem anunciadas, a entidade divulgou um vídeo do seu presidente, Igor Calvet, comentando o resultado da reunião.
Sorrindo, Calvet disse que “o governo federal levou em consideração premissas básicas de sua política industrial”. Para ele, seis meses com cota “é o mínimo aceitável sem colocar em risco os investimentos atuais e futuros”.
O dirigente disse, ainda, esperar “que essa discussão esteja encerrada”, deu as boas-vindas aos “novos entrantes” no parque produtivo de veículos do país e encerrou agradecendo aos parlamentares, ao governo, à entidade que representa as autopeças (Sindipeças) e à dos engenheiros automotivos (AEA) por terem se engajado no movimento que nos últimos dias mobilizou a cadeia da indústria instalada no país.
No início da manhã do mesmo dia da reunião do comitê da Cacex, a BYD divulgou uma carta com o título “ Por que a BYD incomoda tanto”. No texto, a marca líder do mercado de carros elétricos, destacou que “a BYD está sendo bem recebida pelos mesmo consumidores que, por décadas, foram obrigados a pagar caro por tecnologia velha e design preguiçoso”.
“O que a BYD propõe ao Brasil não é um atalho nem uma esperteza fiscal. É uma visão de futuro com veículos mais limpos, mais seguros, mais conectados e custo-benefício justo”, destacou o texto.
A carta foi uma resposta a outra carta, enviada no início da semana ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva por quatro grandes montadoras - Volkswagen, Toyota, Stellantis e General Motors - cogitando demitir e suspender robustos programas de investimento em curso caso o governo atendesse ao pedido da chinesa.
Até o fechamento desta edição, a BYD não havia se pronunciado sobre a decisão da Camex. Na terça-feira, em entrevista ao Valor, o vice-presidente da BYD no Brasil, Alexandre Baldy, disse não acreditar que a o comitê cederia “à chantagem de uma indústria velha e ultrapassada”. “Os famosos barões de montadoras estrangeiras não conseguem oferecer inovação e tecnologia”, disse o executivo.
A BYD pediu ao governo redução do Imposto de Importação para veículos desmontados de 18% para 10% durante 12 meses, período em que, segundo a empresa, pretende nacionalizar a produção da fábrica que está em fase final de construção em Camaçari (BA). Os carros semidesmontados chegam da China soldados e pintados, para acabamento final no Brasil.
A GWM é outra chinesa também prestes a começar a produzir no Brasil. A inauguração da fábrica está marcada para agosto. Em entrevista ao Valor na quarta-feira (30), o diretor de assuntos institucionais da GWM Brasil, Ricardo Bastos, disse que a decisão do governo não afeta os planos da montadora.
A GWM inscreveu-se no Mover, programa de incentivos fiscais do governo federal para a indústria automotiva. O Mover oferece benefícios em troca de investimentos em pesquisa e inovação e da produção local de veículos que funcionam com menos emissões de poluentes.
Assim, a GWM optou por importar peças, que são taxadas em 14% a 18% de Imposto de Importação no caso de componentes semelhantes aos produzidos localmente e em 2% no caso de itens sem produção nacional similar. Em modelos eletrificados, uma especialidade das marcas chinesas, esse é o caso das baterias, por exemplo. “Dessa forma, no Mover, já estamos sendo beneficiados”, destaca Bastos.
Segundo o executivo, a empresa planeja acelerar a nacionalização dos veículos com vistas às oportunidades de exportação. “A GWM vê com bons olhos a medida do governo, que visa estimular a produção local de novas tecnologias”, diz Bastos.
Valor - SP 31/07/2025
Setor registrou R$ 26,4 bilhões em receita líquida no mês de junho, um avanço de 9,9% na comparação com o mesmo período de 2024, mas uma queda de 4% frente ao mês de maio, informou a Abimaq
A indústria brasileira de máquinas e equipamentos registrou R$ 26,4 bilhões em receita líquida no mês de junho, um avanço de 9,9% na comparação com o mesmo período de 2024, mas uma queda de 4% frente ao mês de maio, segundo dados divulgados pela Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). A queda foi puxada, principalmente, pela receita no mercado interno, que caiu 6,1% em relação a maio.
A diretora de competitividade, economia e estatística da Abimaq, Cristina Zanella, ressaltou que, apesar de um início de ano mais fraco na ponta, o setor de máquinas e equipamentos encerrou o primeiro semestre com alta de 14,8%. A projeção inicial da entidade era de um crescimento de 3,7% para 2025, mas, segundo ela, o resultado pode ser ainda mais positivo caso os efeitos das tarifas anunciadas pelos Estados Unidos não se concretizem.
“Se desconsiderarmos os impactos tarifários, devemos crescer acima do previsto. No entanto, caso essas medidas entrem em vigor, a redução das receitas pode ser proporcional, com impacto negativo no setor”, afirmou. Ela explica que, caso as tarifas sejam efetivadas, o impacto sobre a receita total do setor seria de aproximadamente dois pontos percentuais, com queda de 7,9% para 5%.
No comércio exterior, as exportações somaram US$ 1,05 bilhão em junho, uma alta de 14,5% na comparação interanual e de 6,3% em relação ao mês anterior. Já as importações totalizaram US$ 2,6 bilhões, com queda de 2,5% sobre maio, mas alta de 13,1% em relação a junho de 2024. No acumulado do primeiro semestre, o valor importado chegou a US$ 15,7 bilhões, o maior da série histórica para o período.
O consumo aparente foi de R$ 35,6 bilhões em junho. Apesar de representar alta de 9,9% sobre o mesmo mês do ano passado, houve queda de 5,5% frente a maio, em linha com a retração das importações e do faturamento interno.
No primeiro semestre de 2025, o setor de máquinas e equipamentos brasileiro registrou mudanças relevantes em seus principais destinos de exportação. As vendas para a América do Norte recuaram 13,5%, com destaque para os Estados Unidos — que respondem por 26,6% das exportações do setor —, onde houve queda de 12,1%, puxada pela menor demanda por máquinas agrícolas e para construção civil.
Em contrapartida, os embarques para a Europa cresceram 9,4%, e para a América do Sul, 14,7%. Na região sul-americana, os destaques foram a Argentina, com alta expressiva de 55,3%, impulsionada pela demanda por máquinas para agricultura e construção, além de Chile em 12,1% e Peru, com 18,5%.
Zanella afirmou que a entidade tem mantido diálogo constante com o governo para contribuir nas negociações e propor medidas que ajudem a mitigar a perda de mercado diante do cenário internacional. “Para quem exporta, falamos em acesso ao crédito acumulado, taxas de juros menores para manutenção de capital de giro e outras ações.”
CNN Brasil - SP 31/07/2025
O setor de máquinas e equipamentos tornou-se o segmento mais afetado em termos de faturamento após a imposição de tarifas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. A informação foi apresentada por José Velloso, da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).
Com exportações na ordem de US$ 3,6 bilhões no ano passado, o setor não foi incluído na lista de exceções das tarifas americanas. A exclusão pode estar relacionada à concorrência direta com produtos dos Estados Unidos, que é um dos maiores produtores mundiais de máquinas, ao lado da China e Alemanha.
Déficit comercial e normas técnicas
Na balança comercial do setor, os Estados Unidos exportaram US$ 4,7 bilhões em máquinas para o Brasil em 2024, resultando em um déficit de US$ 1,1 bilhão para o lado brasileiro. Além disso, o redirecionamento das exportações para outros mercados enfrenta obstáculos significativos devido às especificações técnicas.
Os produtos desenvolvidos para o mercado americano seguem normas específicas, como medidas em polegadas e peso em libras, diferentemente do sistema métrico utilizado em outros países. Essa particularidade dificulta a adaptação rápida para novos mercados.
Perspectivas de negociação
Após a redução de 40% na lista de produtos afetados pelos Estados Unidos, que diminuiu a tarifa média de 50% para 31%, abrem-se possibilidades para novas negociações. Velloso destaca que o Brasil deve aproveitar este recuo estratégico americano para dialogar, evitando medidas de retaliação que poderiam escalar o problema.
Valor - SP 31/07/2025
O modal rodoviário responde por 64,7% da movimentação de granéis agrícolas e fertilizantes do país, de acordo com dados do Núcleo de Logística da Fundação Dom Cabral (FDC)
O governo federal planeja iniciar ainda em 2025 dois programas de licitações de infraestruturas logísticas, um voltado para ferrovias e outro para hidrovias, com o objetivo de reduzir a atual dependência do agronegócio do modal rodoviário, que, hoje, responde por 64,7% da movimentação de granéis agrícolas e fertilizantes do país, de acordo com dados do Núcleo de Logística da Fundação Dom Cabral (FDC).
O Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) pretende publicar em setembro o edital da primeira concessão hidroviária do país, a Hidrovia do Rio Paraguai, e efetivar o leilão até dezembro. A hidrovia de 600 quilômetros de extensão abrange o trecho entre Corumbá (MS) e Porto Murtinho (MS) e deve estimular investimentos de R$ 13,9 milhões em 2026.
“A concessão vai garantir serviços de sinalização e dragagem permanente, melhorando a navegabilidade da hidrovia”, diz o ministro Sílvio Costa Filho, do MPor. Nos últimos cinco anos, o transporte pelo rio foi paralisado, em média, 65 dias por ano, devido ao assoreamento e à estiagem. A previsão é que, com a concessão, as interrupções ocorram, em média, oito dias por ano.
Atualmente o rio Paraguai não é representativo para a produção agropecuária brasileira e escoa principalmente minérios, que respondem por 78% do tráfego. Em média, apenas 300 mil toneladas de grãos por ano são escoadas pela via. A projeção da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) é que esse volume evolua gradualmente para algo como 3,2 milhões de toneladas anuais até 2045.
“A prioridade do agro são as concessões das hidrovias amazônicas, como as dos rios Madeira (RO-AM), Tocantins (TO-PA) e Tapajós (PA)”, diz Elisangela Pereira Lopes, assessora técnica de infraestrutura e logística da CNA. Em 2024, foram embarcados ao exterior por portos de rios amazônicos 31,8 milhões de toneladas de soja e milho.
“Esse volume seria maior se houvesse mais previsibilidade na oferta. O transporte pelo Madeira, por exemplo, é impraticável em períodos de grande seca, como ocorreu em 2023”, diz Lopes. “O transporte não seria interrompido se houvesse um serviço de dragagem contínua.”
A navegabilidade do rio Tocantins é prejudicada por uma formação rochosa de 40 quilômetros conhecida como Pedral do Lourenço, no Pará. O derrocamento das rochas é uma promessa que já constava do Programa de Aceleração do Crescimento 1 (PAC 1), lançado em 2007. Em maio, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) deu aval para a remoção do pedral, o que deve ocorrer em 12 meses. O MPor calcula que o rio tem potencial de movimentar 20 milhões de toneladas por ano, substituindo 500 mil viagens de caminhões. A hidrovia favorece principalmente os produtores da região conhecida como Matopiba, que engloba Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
No cronograma original do governo, os leilões de hidrovias estavam previstos para iniciar no primeiro trimestre de 2025, com a concessão da Hidrovia do Madeira. Agora, segundo o ministro Costa Filho, o MPor programa levar a leilão em 2026 as hidrovias do Madeira, do Tocantins, do Tapajós (PA) e também da Lagoa Mirim (RS) e a chamada Hidrovia Verde, de Manaus (AM) à Barra Norte, na foz do rio Amazonas.
Ampliar a infraestrutura logística do Centro-Oeste, do Matopiba e do Norte do país é uma prioridade do agronegócio há mais de 30 anos e que sucessivos governos não têm conseguido atender. Em 2024, o chamado Arco Norte, região acima do paralelo 16ºS, linha imaginária que corta o Brasil na altura do sul de Mato Grosso ao sul da Bahia, produziu 178,9 milhões de toneladas de soja e milho, 67,9% da produção nacional. A expansão da produção na região foi de 220% em um período de apenas cinco anos.
Em Mato Grosso, maior produtor nacional, a colheita de soja e milho foi de 86 milhões de toneladas na safra 2023/2024. A projeção conservadora é de uma produção de 144 milhões de toneladas em 2035. “A produção migrou, ocupou novos territórios agrícolas, mas o produtor continua dependendo da mesma rodovia que usava há 40 anos”, resume o especialista em logística Paulo Resende, da FDC.
Segundo Resende, enquanto o Brasil investiu por ano em média 0,8% de seu Produto Interno Bruto (PIB) em infraestrutura de transporte nos últimos 40 anos, concorrentes como os Estados Unidos, Índia, Austrália e Canadá investiram entre 2,1% e 2,6% de seus PIBs. “Estamos perdendo competitividade.”
Em abril, de acordo com pesquisa da CNA, o produtor de Sorriso (MT) pagava US$ 91 por tonelada para transportar soja de caminhão por 2 mil quilômetros até Santos (SP) e US$ 35 para o transporte marítimo até a China, totalizando US$ 126. O mesmo produtor de Sorriso pagava US$ 70 por tonelada para também percorrer 2 mil quilômetros de caminhão e barcaça até Barcarena (PA) e US$ 38 para chegar à China, totalizando US$ 108 por tonelada.
Os concorrentes de Illinois, nos Estados Unidos, pagam US$ 22 por tonelada para levar grãos por barcaça até New Orleans, distante 1.360 quilômetros, e outros US$ 45 para o transporte marítimo, totalizando US$ 67 por tonelada.
“Nosso problema é o custo do transporte em território nacional, que poderia ser bastante amenizado com uma oferta maior de ferrovias e hidrovias”, diz Lopes, da CNA. A estimativa, segundo a economista, é que uma ferrovia se viabilize com o transporte de 10 milhões de toneladas anuais. “Só a produção atual de Mato Grosso viabiliza oito ferrovias. Não temos nenhuma”, diz.
Há mais de ano, o governo federal vem adiando o lançamento de um Plano Nacional de Ferrovias, com o qual pretende viabilizar investimentos estimados em R$ 138,6 bilhões em 15 ativos ferroviários e 19 mil quilômetros de trilhos. Uma das propostas do plano é a estruturação de um modelo financeiro denominado “concessão com aportes”, que prevê que o governo federal entre com parte dos recursos para o Capex das obras, ou seja, com parte da construção da infraestrutura necessária, sendo que um parceiro privado deverá fazer a contrapartida financeira da obra e depois arcar com os custos operacionais.
“É uma forma que estudamos para amenizar o investimento inicial e atrair investidores”, diz George Santoro, secretário-executivo do Ministério dos Transportes. Segundo Santoro, os recursos públicos para os projetos devem vir de três fontes: verbas orçamentárias, de valores obtidos com a repactuação de contratos antigos de ferrovias e também de imóveis da União, que seriam monetizados por meio de fundos de investimentos imobiliários.
O primeiro projeto previsto neste formato é a construção greenfield, ou seja, do zero, do Anel Ferroviário Sudeste (EF-118), ligando Espírito Santo e Rio de Janeiro e que terá conexão com a Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM). O trecho inicial, de 170 quilômetros entre Anchieta (ES) e São João da Barra (RJ), prevê investimentos de R$ 4,6 bilhões. A meta do governo é realizar o leilão em dezembro, mas Santoro já admite a possibilidade de que ocorra em março de 2026.
Um segundo trecho, ainda sem data de leilão prevista, terá 235 quilômetros e chegará a Nova Iguaçu (RJ), onde fará conexão com a malha ferroviária que atende o porto de Santos. “Será uma ferrovia que conecta os portos do Sudeste”, diz Santoro. Minério de ferro, açúcar e café são as principais cargas previstas.
Para 2026, o Ministério dos Transportes planeja efetivar uma concessão de grande interesse do agronegócio: o corredor ferroviário Leste-Oeste, formado pela Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) entre Ilhéus (BA) e Figueirópolis (TO), onde se conectará à Ferrovia Norte-Sul (FNS), e a Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico), que parte da FNS em Mara Rosa (GO) e chega a Lucas do Rio Verde (MT), atendendo no trajeto várias regiões produtoras de grãos.
Também está na programação do Ministério dos Transportes para 2026 o leilão da Ferrogrão, projeto greenfield de 933 quilômetros entre Sinop (MT) e Miritituba (PA). O projeto, no entanto, aguarda desde 2021 uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre questionamentos relacionados à sua viabilidade socioambiental e depois ainda terá de passar pela aprovação do Tribunal de Contas da União (TCU).
Valor - SP 31/07/2025
Ministro dos Transportes disse que as tratativas para reconfigurar a concessão estão em estágio avançado e a expectativa do governo é conseguir realizar o leilão da ferrovia Leste-Oeste já no próximo ano
O ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB), afirmou nesta quarta-feira (30), que o governo federal está trabalhando para o corredor ferroviário Fico-Fiol a fim de viabilizar um novo modelo que permita levar o projeto ao mercado em 2026.
“A gente está defendendo que saia da concessão do corredor Fico-Fiol”, afirmou o ministro, no seminário “Logística no Brasil”, promovido pelo Valor, com oferecimento da Infra S.A e do Ministério dos Transportes, na sede da Fiesp, ao comentar os esforços para viabilizar a concessão da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) e da Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico) de forma independente e mais atrativa para novos investidores.
De acordo com Renan Filho, as tratativas para reconfigurar a concessão estão em estágio avançado e a expectativa do governo é conseguir realizar o leilão da ferrovia Leste-Oeste já no próximo ano.
“Isso está bem encaminhado. Eu espero que nós tenhamos uma solução. E, com essa solução dada, esperamos fazer no ano de 2026 um leilão de concessão da ferrovia Leste-Oeste”, destacou.
O ministro vê a nova modelagem como estratégica para ampliar a participação da malha ferroviária na matriz logística nacional e atrair capital privado para um projeto considerado vital para o escoamento da produção do Centro-Oeste.
“É um trabalho importante que nós vamos fazer e esperamos levar a concessão o ano que vem do corredor Fico-Fiol ao mercado para que a gente finalize, coloque de pé esse projeto tão importante para o desenvolvimento do Brasil”.
Valor - SP 31/07/2025
Ministro de Portos e Aeroportos afirmou que o Brasil possui mais de 20 mil quilômetros de hidrovias navegáveis e tem potencial de alcançar até 60 mil quilômetros
O ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho (Republicanos), destacou nesta quarta-feira (30) a prioridade que o governo brasileiro tem dado às hidrovias como modal estratégico para aumentar a competitividade do país em uma corrida por ampliar mercados, em especial na Ásia.
“Pela primeira vez na história do país, estamos tratando a questão hidroviária como prioridade”, disse nesta manhã durante a participação na série de debates "Logística no Brasil", promovido pelo Valor, com oferecimento da Infra S.A e o Ministério dos Transportes.
Segundo o ministro, o Brasil possui mais de 20 mil quilômetros de hidrovias navegáveis e tem potencial de alcançar até 60 mil quilômetros. “Diferente dos Estados Unidos e de outras regiões [que não têm esse potencial hidroviário], eu acredito muito na importância dessa agenda para o Brasil, que ainda conta com 8 mil quilômetros de costa marítima”, destacou.
Entre os projetos em curso, Costa Filho anunciou que ainda neste ano será realizada a primeira concessão hidroviária do país, no trecho entre os rios Paraguai e Paraná, com foco no escoamento de celulose e minérios. Ele também destacou a integração logística com o Porto de Chancay, que é um importante terminal portuário no Peru, localizado a 80 quilômetros ao norte de Lima, na cidade de Chancay. “Isso ampliaria a competitividade do Brasil no comércio internacional”, frisou.
O ministro também citou novos projetos para “arrancar” este ano, que incluem o desenvolvimento das hidrovias do Madeira e do Tocantins. “Essas obras podem reduzir em até 40% os custos logísticos”, afirmou. Ele defende o ganho de eficiência e rapidez no transporte hidroviário, uma agenda que se fortaleceu este ano. “Cada 25 barcaças equivalem a 500 caminhões a menos nas estradas”.
Para o ministro, a maior integração entre hidrovias e ferrovias está alinhada ao novo plano logístico nacional e será fundamental para aumentar a competitividade da produção brasileira nos mercados internos e externos nos próximos 25 anos.
Valor - SP 31/07/2025
Possibilidade de o presidente americano taxar países que compram produto russo ainda é preocupação para o setor no Brasil
A implementação da tarifa de 50% pelos Estados Unidos sobre o Brasil, anunciada ontem pela Casa Branca, livrou petróleo e derivados da sobretaxa. A medida do presidente Donald Trump entra em vigor em 6 de agosto e representa um alívio para a indústria petrolífera nacional. Além de os EUA comprarem petróleo e derivados do Brasil, havia o risco de que uma eventual reciprocidade tarifária, por parte do governo brasileiro, aumentasse custos de importação de equipamentos.
O Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP) disse em nota que recebeu “positivamente” a notícia da isenção da tarifa. “A decisão de isentar energia e produtos energéticos [petróleo bruto, seus derivados e gás natural liquefeito, entre outros] é um reconhecimento da especificidade do mercado de petróleo e seus derivados e da sua importância estratégica no comércio bilateral”, disse o IBP.
O instituto disse que existe um fluxo relevante não apenas de exportações de petróleo brasileiro, que somaram US$ 2,37 bilhões no primeiro semestre de 2025, mas também de importações de derivados essenciais para o mercado nacional. “A manutenção da competitividade do setor junto ao mercado americano contribui para preservar os fluxos comerciais e os investimentos, mitigando impactos imediatos.” A Petrobras acrescentou que, com a isenção, não há alteração em relação ao cenário atual. “Portanto, as operações da Petrobras não sofrem alteração”, disse a empresa em nota.
A visão de especialistas é que a notícia não surpreende, uma vez que segue certo padrão. “Trump costuma excluir petróleo e derivados dessas medidas por ser importador”, disse Pedro Rodrigues, sócio do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). “Seria um tiro no pé haver uma taxa a esses produtos, com o risco de inflação.”
Felipe Perez, chefe de estratégia de combustíveis e refino para América Latina da S&P, vê a notícia como positiva. Na visão dele, a isenção reduz a vulnerabilidade de precisar encontrar compradores e talvez até fornecedores, se fosse o caso de o Brasil aplicar a reciprocidade. Mas Perez alerta para outra frente. “Há ainda a preocupação sobre uma possível sanção a países que compram produtos da Rússia.”
A Petrobras não compra diesel da Rússia, mas aumentou a importação do produto entre abril e junho deste ano em 230% em relação a igual período do ano passado, para 122 mil barris por dia. A empresa tem como principais fornecedores Estados Unidos, Índia e região do Golfo Pérsico.
Também ontem Trump impôs 25% de tarifa sobre a Índia, além de uma multa não especificada, por comprar produtos russos. Desde o início do mês, o presidente americano levanta a possibilidade sobre esse tipo de tarifa secundária para fazer com que clientes da Rússia pressionem o Kremlin por um cessar-fogo com a Ucrânia. Além da Índia, China e Brasil estariam entre os possíveis afetados pela medida.
Desde 2023, a Rússia é a principal origem do diesel importado pelo país, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic). O movimento se manteve em 2024 e ainda é realidade em 2025. De janeiro a junho, a Rússia foi o principal supridor de diesel ao Brasil, segundo o Mdic. Importadores brasileiros compraram no período US$ 2,5 bilhões em combustível russo. Os Estados Unidos ficaram em segundo lugar, com US$ 1 bilhão.
Perez, da S&P, avalia que uma possível decisão de Trump de punir o Brasil por comprar produto russo faria com que os Estados Unidos voltassem a ganhar protagonismo como fornecedor de diesel para importadores brasileiros.
O diesel russo começou a ganhar protagonismo nas importações com a guerra entre Rússia e Ucrânia. A União Europeia e os Estados Unidos impuseram sanções à venda de combustíveis russos, o que levou a Rússia a buscar novos mercados. Para atrair clientes, o país passou a oferecer descontos. Conforme o Mdic, 2023 foi marcado por um recorde na importação brasileira de diesel da Rússia, com US$ 4,5 bilhões. Em 2024, a tendência se manteve. O Brasil comprou US$ 5,4 bilhões em diesel russo.
Infomoney - SP 31/07/2025
A expectativa é de que as companhias do setor de petróleo do Brasil retomem as exportações aos Estados Unidos após a indicação nesta quarta-feira de que o produto ficará isento das tarifas de 50% anunciadas neste mês, disse o presidente do Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP), Roberto Ardenghy, à Reuters.
As petroleiras haviam optado por estocar o petróleo nas plataformas de produção ou em navios próprios maiores, nas últimas semanas, após o presidente dos EUA, Donald Trump, ter anunciado em 9 de julho as novas tarifas, sem detalhar eventuais isenções.
Em decreto nesta quarta-feira, os EUA excluíram várias das principais exportações brasileiras da tarifa, como suco de laranja, algumas aeronaves, celulose e produtos de energia.
“Pela nossa primeira leitura petróleo e derivados (capítulo 27) ficaram de fora. Mas nossa equipe técnica está confirmando”, disse Ardenghy, presidente do IBP, que representa as petroleiras no Brasil, como Petrobras, Shell, TotalEnergies, ExxonMobil e Equinor.
“Nosso setor é muito específico. Colocar tarifas sobre nossos produtos é um jogo de perde/perde”, acrescentou Ardenghy.
O petróleo é o principal produto da pauta de exportação do Brasil aos Estados Unidos. Antes do anúncio tarifário de Donald Trump contra o Brasil neste mês, o produto também estava isento da tarifa de 10% aplicada mais cedo neste ano para as exportações brasileiras aos EUA.
Ardenghy explicou ainda que a data considerada para a eventual cobrança de tarifas seria a da chegada na alfândega do porto nos EUA. Dessa forma, o envio de cargas ficou suspenso desde a época do anúncio da nova tarifa, em 9 de julho, uma vez que o tempo estimado de uma carga sair do Brasil e chegar nos portos americanos é de 21 dias.
Ele ponderou, no entanto, que algumas cargas que já estavam no mar podem ter sido desviadas para chegarem antes da data válida para as tarifas.
Mais cedo, o presidente do IBP havia reiterado que o petróleo brasileiro, por ser de baixo teor de enxofre e CO2, é muito valorizado no mercado. Disse que as empresas encontrariam outros destinos, caso não houvesse isenção.
Em 2024, o Brasil exportou um total de 1,78 milhão de barris por dia (bpd), sendo que 243 mil bpd foram destinados aos EUA, segundo dados do governo compilados pela consultoria StoneX. Em termos de receita, as vendas de petróleo do Brasil ao exterior somaram US$44,96 bilhões, sendo US$5,83 bilhões ao país norte-americano.
Já a Petrobras, maior produtora de petróleo do Brasil, tem uma exposição menor.
A companhia publicou na terça-feira que os EUA representaram 8% de suas exportações no segundo trimestre, contra 5% no mesmo período de 2024 e 4% no primeiro trimestre deste ano.
Especialistas afirmaram à Reuters anteriormente que o Brasil teria flexibilidade logística e comercial para preservar a competitividade do seu petróleo no mercado internacional, caso a commodity brasileira não fosse isenta das novas tarifas.
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, disse à Reuters em meados do mês que poderia redirecionar o petróleo que vende para os Estados Unidos, enviando mais cargas para os mercados da Ásia e da Ásia-Pacífico com tarifas mais altas anunciadas pelos EUA sobre o Brasil.
Valor - SP 31/07/2025
Empresas devem informar de forma “clara, nítida e transparente” quais são os critérios utilizados para a composição de preços repassados ao consumidor
O governo federal determinou prazo de 48 horas para que 11 distribuidoras de gás natural canalizado e veicular informem, de forma “clara, nítida e transparente”, quais são os critérios utilizados para a composição de preços repassados ao consumidor de combustível e gás. A notificação foi enviada ontem por meio da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Ontem, a Petrobras anunciou redução de 14% no valor da molécula de gás fornecida às empresas. Mas, segundo o secretário Nacional de Defesa do Consumidor do Ministério da Justiça, Wadih Damous, as distribuidoras já disseram que o percentual de 14% não chegará ao consumidor final. A previsão é que a diminuição do preço seja somente de 1,39% a 1,45%, segundo números das próprias distribuidoras e apresentados pelo secretário ontem.
“É uma proporção assimétrica em relação ao que a Petrobras anunciou. Isso gera absoluta perplexidade”, disse, em entrevista coletiva concedida no Palácio da Justiça, em Brasília.
De acordo com o secretário, o objetivo da notificação não é o “tabelamento de preços”. Para ele, a redução de 14% não significa que o valor será automaticamente repassado ao consumidor. Mas Damous destacou a importância de saber se houve “abuso” e “possivelmente omissão” das empresas no repasse de preços.
De acordo com a Petrobras, o preço médio do gás é formado por: 51% do valor da distribuição e revenda; 16,8% do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS); 32,2% da parcela da petroleira.
Caso as empresas não respondam dentro do prazo, poderá ser instaurado um processo administrativo sancionador, em que as distribuidoras “terão confessado, de fato, que agiram abusivamente ao não repassar a proporção adequada” definida pela Petrobras. Além do processo, há a possibilidade de aplicação de multa, que pode chegar a R$ 13 milhões.
Damous também não descartou o envolvimento de outras instituições, como o Ministério de Minas e Energia, a Agência Nacional do Petróleo e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), se o preço praticado não for informado de forma correta pelas empresas.
Esta é a primeira vez que o governo notifica distribuidoras de gás. No início de julho, a Procuradoria Federal Especializada junto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) solicitou uma investigação sobre o setor de gás e petróleo, com base em informações da Advocacia-Geral da União (AGU) e do Ministério de Minas e Energia (MME).
Damous não detalhou quais são as 11 empresas. Procurada, a Associação das Distribuidoras de Combustíveis (Abicom) não se pronunciou até a publicação desta reportagem.
Valor - SP 31/07/2025
O Tribunal de Contas da União (TCU) determinou que a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) faça ajustes no processo de desestatização do lote rodoviário que abrange os trechos da BR-116/BA/PE e da BR-324/BA, denominado Projeto Rota dos Sertões. O tema foi julgado pelo plenário da Corte de Contas nesta quarta-feira, 30.
O trecho possui uma extensão total de 502 km e tem início no anel rodoviário de Feira de Santana no Estado da Bahia até Salgueiro no estado de Pernambuco, cruzando 16 municípios.
A modelagem prevê investimentos da ordem de R$ 2,7 bilhões e custos operacionais estimados em R$ 3,8 bilhões, ambos em valores de abril de 2023. A tarifa básica de pedágio proposta é de R$ 0,0695/km para pista simples e R$ 0,0903/km para pista dupla.
De acordo com o voto do relator do processo, ministro Augusto Nardes, a análise das minutas de edital, contrato e anexos revelou aspectos que demandam ajustes para assegurar segurança jurídica, transparência e adequada alocação de riscos.
Os pontos estão relacionados à reclassificação tarifária e fator de recomposição, sobre a implantação de acostamentos, sobre o percentual fixado de desconto de usuário frequente (DUP) e sobre o coeficiente de ajuste temporal.
O TCU também fez determinações relacionadas aos "segmentos compartilhados" entre o Poder Concedente e a futura concessionária. Pelo modelo, uma inovação regulatória da modelagem apresentada, caberia ao DNIT a execução das obras de ampliação de capacidade nesses trechos e à concessionária a prestação dos serviços.
Apesar de inconsistências identificadas sobre o modelo e da manutenção das determinações relacionadas ao tema no voto aprovado hoje, a ANTT informou ao TCU que houve uma alteração nas premissas da concessão, de forma que não seriam mais utilizados os segmentos compartilhados. Assim, as obras de duplicação passariam a integrar a concessão ou seriam previamente concluídas.
IstoÉ Dinheiro - SP 31/07/2025
O presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas (CSMIA) da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Pedro Estevão Bastos, disse nesta quarta, 30, que o segmento de máquinas agrícolas vai agora esperar os impactos do tarifaço, caso seja mesmo implementado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, contra importações brasileiras, para ver se altera ou não a projeção para o setor.
Durante entrevista coletiva em que a entidade detalhou o balanço do setor de junho, Estevão lembrou que o segmento de máquinas e implementos agrícolas vinha trabalhando com uma projeção de crescimento do faturamento em 2025 na ordem de 8% sobre o ano passado.
De acordo com ele, o Plano Safra está em vigor e funcionando com os recursos para o segmento, tendo ficado dentro do esperado.
“A gente não esperava muita coisa, mas mesmo assim, se você pegar todo o volume de recursos que tem disponível, se você somar as linhas, Moderfrota, Pronaf, Underfrota, Pronaf e outros dá quase R$ 30 bilhões. É 60% da venda anual do segmento. Ou seja, é um número bastante razoável, considerando que a taxa de juro dessas linhas são menores que a Selic. Você não tem nenhum setor que tenha um volume de recursos disponível com uma taxa dessa. A taxa é boa. É alta, mas você tem o recurso. Então a gente caminhava para um ano, razoavelmente, melhor, bem melhor do que o passado. Com o tarifaço do Trump, as coisas ficaram nebulosas”, lamentou Estevão.
O Moderfrota é o programa de financiamento do governo brasileiro destinado à modernização da frota de máquinas agrícolas no País, com foco em tratores, colheitadeiras e implementos associados.
Agrolink - RS 31/07/2025
A elevação de tarifas de importação de 10% para 50% sobre diversos produtos brasileiros nos Estados Unidos, com vigência prevista para 1º de agosto, ameaça intensificar os desafios econômicos de setores altamente dependentes do mercado externo, como café, suco de laranja, carne bovina e frutas frescas. O impacto direto sobre a geração de receita dessas cadeias produtivas pode acelerar pedidos de Recuperação Judicial, principalmente entre empresas já fragilizadas financeiramente.
Segundo artigo de Cybelle Guedes Campos e Odair de Moraes Junior, sócios do escritório Moraes Junior Advogados, publicado recentemente, essa medida tarifária, embora não caracterize sozinha um caso de força maior contratual, agrava o cenário de crise no agronegócio. De acordo com dados da Serasa, foram registrados cerca de 400 pedidos de Recuperação Judicial no setor apenas no primeiro trimestre de 2025 — alta de 21,5% em relação ao último trimestre do ano anterior.
“Nesse contexto, a jurisprudência brasileira admite a ocorrência de eventos externos e imprevisíveis — como desdobramentos geopolíticos e alterações abruptas em políticas comerciais internacionais — como fatores relevantes na caracterização de crise econômico-financeira apta a justificar o ajuizamento de pedidos de Recuperação Judicial, desde que devidamente comprovada a perda de capacidade de adimplemento em decorrência de tais fatores, e não por má gestão”, comenta.
Além da via judicial, os especialistas recomendam medidas preventivas, como renegociações com credores, revisão de receitas projetadas e planos de contingência. A inadimplência decorrente pode ainda ativar cláusulas de vencimento antecipado em contratos de financiamento. Por isso, a preparação estratégica e jurídica pode ser crucial para garantir a continuidade dos negócios e preservar empregos diante da instabilidade global.
“Mais do que reativa, a postura neste momento deve ser proativa. A preparação jurídica, financeira e estratégica para a reestruturação pode ser decisiva para garantir a continuidade das operações, a preservação da função social da empresa e a manutenção de empregos. Em tempos de volatilidade global, a Recuperação Judicial deve ser compreendida como um instrumento legítimo de reorganização empresarial e proteção da atividade econômica”, conclui.
Valor - SP 31/07/2025
As preocupações com o comportamento imprevisível de Donald Trump superam até mesmo eventuais volatilidades de mercado
As esperanças de o Brasil obter um novo recorde histórico nas exportações do agronegócio, marca registrada em 2023, quando alcançou US$ 166,5 bilhões, podem ser sepultadas caso seja mantido nos próximos meses o “tarifaço” de 50% anunciado pelo presidente americano Donald Trump. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), as exportações do setor no primeiro semestre registraram US$ 82,029 bilhões, ante US$ 82,231 bilhões no mesmo período de 2024, o que representa queda de apenas 0,2%, mas com um aumento da participação do agronegócio nas exportações gerais do país, de 49,3% para 49,5%.
Se não houvesse intercorrências e o desempenho fosse nos mesmos termos do primeiro semestre, no mínimo, o setor fecharia o ano com desempenho próximo ou levemente superior ao de 2024 — US$ 164,4 bilhões —, o segundo maior da série histórica, com expectativas de superar conforme as variações dos preços do café, do açúcar, da carne e do algodão no mercado internacional. Já as importações registraram US$ 10,089 bilhões (+6,1%), puxadas pelo trigo, com alta de 6,3% no volume e 3,1% no valor. Com menor participação, houve aumento expressivo nas importações de borracha natural (51,7%) e álcool (35,6%), além de insumos, como fertilizantes (19,2%), defensivos agrícolas (18,3%) e produtos para nutrição animal (15,6%).
No atual momento, as preocupações com o comportamento imprevisível de Donald Trump superam até mesmo eventuais volatilidades de mercado. Antes do anúncio do "tarifaço", no início de abril, Trump taxou em 10% a entrada de produtos brasileiros e anunciou uma pausa de 90 dias uma semana depois. No início de julho, após o encontro do Brics, no Rio de Janeiro, o líder americano voltou a ameaçar os países alinhados ao grupo com novas taxas e estendeu o prazo com data para 1º de agosto. E, na mesma semana, impôs a tarifa de 50% para todos os produtos brasileiros, alegando questões políticas e suposto déficit comercial na balança, informação contestada pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil) no estudo “Monitor do Comércio Brasil-EUA”, que revela ser de US$ 3,2 bilhões o superávit total entre janeiro e maio, de acordo com estatísticas oficiais dos Estados Unidos, valor 61,7% acima do registrado em igual período de 2024.
De acordo com o mesmo estudo, entre os dez produtos mais exportados no primeiro semestre, quatro estão relacionados à agroindústria, com destaque para carne bovina, com aumento de 142% no valor (US$ 791,2 milhões), impulsionada por maior demanda e menor oferta nos Estados Unidos. Os sucos de frutas, com 90% de predominância do suco de laranja, registraram alta de 68,3% (US$ 743,2 milhões), e o café não torrado computou crescimento de 38,8% (US$ 1,168 bilhão), ambos favorecidos por preços elevados e aumento de consumo. No caso específico da celulose, segundo a Amcham, houve uma queda de 14,9% no valor, em razão do acesso diferenciado do Canadá, que conta com vantagens competitivas de livre comércio por causa do Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA), que substituiu o antigo Nafta.
Em relação ao suco de laranja, o Brasil é o maior exportador mundial, com 75% de participação, e vem aproveitando a queda de produção interna americana. Os Estados Unidos, grandes consumidores do suco, foram expressivos produtores até cerca de 15 anos atrás, quando sucessivas ondas de pragas, causadas pela mosca Diaphorina citri, e furacões dizimaram os pomares da Flórida e tornaram o país dependente das importações, sendo o Brasil responsável por 47% das vendas para lá.
Confiante inicialmente em fechar o ano com um volume recorde de US$ 168 bilhões, o consultor Carlos Cogo, sócio da Cogo Inteligência em Agronegócio, reformulou suas previsões. “Produtos florestais, carne bovina, café, etanol, açúcar e suco de laranja, que juntos compõem uma parcela substancial das exportações brasileiras aos Estados Unidos, enfrentarão forte perda de competitividade, risco de queda nos volumes exportados e pressão sobre margens e empregos”, afirma.
Até o “tarifaço”, Cogo acreditava que a taxa de 10% causaria pouco impacto nos negócios bilaterais, porque “os Estados Unidos não têm alternativas para compras da carne bovina processada, do suco de laranja e do café verde em grão”. Com a tarifa de 50%, diz Cogo, até mesmo a carne bovina, que tem uma cota de isenção de 65 mil toneladas (já esgotada no primeiro semestre), vai sofrer abalo, com custo extra de US$ 2.866/tonelada. “Com 50% sobre a tarifa de 26,4%, as margens estarão comprimidas e haverá queda das exportações.”
Segundo Sueme Mori, diretora de relações internacionais da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o bom desempenho do setor no primeiro semestre se deu em função das circunstâncias. “O clima de incerteza com Trump fez com que os exportadores, principalmente de carne bovina, antecipassem embarques para os Estados Unidos antes que as tarifas entrassem em vigor e provocassem aumento nos preços internacionais”, diz. Em compensação, diz ela, foi menor a demanda por parte da China, em especial na compra de algodão. “Houve adequações promovidas pelo governo chinês acerca das perspectivas de comércio. O algodão foi o principal produto com queda nas exportações ao país asiático por ser insumo para a fabricação de produtos têxteis posteriormente exportados. Diante da incerteza para a comercialização, houve redução nas compras de fibras”, afirma.
Antes mesmo do "tarifaço", o consultor Fabio Silveira, sócio da consultoria Macro Sector, mostrava-se pessimista com a desaceleração geral da economia em razão das medidas de Trump e estimava que as exportações fechariam o ano em US$ 138 bilhões. “Com a taxação de 50%, podem cair para US$ 130 bilhões. Os itens mais afetados serão a carne bovina, o suco de laranja, que deve perder até US$ 500 milhões, e o café, que deixará de ser exportado e terá dificuldade de recolocação no curto prazo”, afirma. O consumidor americano, diz ele, também será prejudicado. “A carne brasileira é propícia para hambúrgueres e o americano gosta de café produzido com grãos distintos, que proporcionam diferentes sabores. A oferta de café do Vietnã é insuficiente para atender os Estados Unidos”, afirma.
Com relação aos principais itens da balança comercial, não houve alterações significativas entre os cinco maiores grupos — complexo soja, carnes (bovina, suína e aves), produtos florestais, café e sucroalcooleiro —, que historicamente respondem por mais de 75% das exportações. “A carne aviária sofreu por conta dos embargos para o Oriente Médio, China e Turquia, mas a crise foi contornada e deve voltar aos níveis normais”, afirma Andreia Adami, pesquisadora de exportações do agronegócio do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-Esalq/USP). Em relação à soja, diz Adami, houve a redução de 10% nos valores cotados na Bolsa de Chicago em razão da maior oferta de mercado, principalmente do produto argentino e das perspectivas positivas para a colheita nos Estados Unidos, que passaram incólumes às intempéries climáticas. “A China antecipou as compras dos Estados Unidos para escapar das tarifas, o que gerou menor volume exportado da soja brasileira. Os preços devem permanecer pressionados”, diz.
Para José Alberto Ângelo, pesquisador do Instituto de Economia Agrícola (IEA), da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), o quadro é imprevisível. “Se as exportações crescessem 3% no segundo semestre, haveria chance de recorde.” Segundo estudo da entidade, as exportações paulistas somaram US$ 32,9 bilhões (19,9% do total nacional) no semestre, com destaque para o complexo sucroalcooleiro (26%), carnes (14,2%), soja (11,4%), produtos florestais (11,2%) e sucos (10,8%).